Os números incomparáveis
Russell dominou a NBA como ninguém antes ou depois: 11 campeonatos em 13 anos, 5 prêmios de MVP, 12 participações no All-Star Game. Ele revolucionou completamente a defesa e estabeleceu o conceito moderno de jogador vencedor, alguém cujo impacto transcende estatísticas individuais. Foi o primeiro negro a treinar uma equipe da NBA (1966) enquanto ainda atuava como jogador, quebrando barreiras raciais em uma época de profunda segregação nos Estados Unidos. Suas estatísticas defensivas são lendárias: médias de 22.5 rebotes por jogo na carreira e bloqueios incontáveis, embora essa estatística não fosse oficialmente contabilizada na época. Red Auerbach, seu treinador, disse que Russell poderia ter facilmente 8-10 bloqueios por jogo se fossem registrados.
Mas porque muitos não o consideram o GOAT?
1. Era menos competitiva
Os anos 60 tinham apenas 8 a 14 times na NBA, comparado aos 30 atuais. O nível técnico geral era significativamente inferior ao contemporâneo: não havia linha de três pontos (introduzida apenas em 1979), o atleticismo era limitado por programas de treinamento menos avançados, e a medicina esportiva era primitiva. Muitos jogadores trabalhavam em empregos paralelos durante o off-season para complementar renda, já que salários da NBA eram modestos. Russell competiu contra um pool de talentos significativamente menor, enfrentando os mesmos adversários repetidamente. A expansão da liga e globalização do basquete trouxeram nível de competição que simplesmente não existia na década de 1960, tornando suas conquistas menos impressionantes aos olhos de alguns analistas.
2. Estatiscas ofensivas modestas
Russell teve média de apenas 15.1 pontos por jogo durante toda carreira — respeitável para a época, mas drasticamente inferior aos 30+ pontos de Jordan, LeBron ou Kobe. Para audiência casual que assiste highlights de enterradas e cestas decisivas, esses números parecem ordinários. Seu verdadeiro valor estava na defesa impenetrável, rebotes dominantes e liderança vocal nos vestiários, aspectos fundamentais para vitórias mas menos celebrados e espetaculares. Russell raramente procurava arremessos e frequentemente sacrificava oportunidades ofensivas para posicionar-se defensivamente. Ele via basquete como jogo coletivo onde sua função era parar adversários e criar oportunidades para companheiros, filosofia que não gera estatísticas chamativas nem aparece em resumos de três minutos no YouTube.
3. Supertime do Celtics
Russell jogou a carreira inteira ao lado de múltiplos futuros membros do Hall da Fama: Bob Cousy (armador genial), Bill Sharman (arremessador letal), Tom Heinsohn (ala-pivô versátil), Sam Jones (pontuador clutch), John Havlicek (sexto homem lendário). O Celtics era dinastia meticulosamente construída por Red Auerbach, considerado um dos técnicos mais geniais da história. Críticos argumentam que Russell foi peça fundamental mas ainda assim apenas uma peça de máquina muito maior, não o jogador dominante individual capaz de carregar times medíocres sozinho. Quando comparado a Jordan levando Bulls ou LeBron carregando Cavaliers às finais com elencos limitados, Russell parece ter tido vantagem injusta. Essa narrativa ignora que Russell era o motor defensivo e emocional que fazia toda máquina funcionar, mas persiste nos debates.
4. Wilt Chamberlain - O rival
Wilt "The Stilt" Chamberlain era estatisticamente muito superior: média absurda de 50.4 pontos por jogo na temporada 1961-62, 100 pontos em único jogo (recorde até hoje), médias de 27.2 rebotes na carreira. Wilt era força da natureza, fisicamente superior a todos contemporâneos. Russell consistentemente vencia Chamberlain nos playoffs quando importava, mas Wilt dominava todas estatísticas individuais mensuráveis. Isso criou narrativa persistente de que Russell tinha time dramaticamente melhor e organização superior, não necessariamente talento individual maior. O fato de Chamberlain ter vencido apenas 2 títulos em carreira de 14 anos, apesar de números estratosféricos, complica ainda mais debate sobre quem era realmente melhor jogador.
5. A mudança cultural no basquete
Michael Jordan redefiniu completamente o que significa ser GOAT no basquete moderno: domínio simultâneo ofensivo e defensivo, impacto cultural global transcendendo esporte, marca pessoal valendo bilhões, 6 títulos em 6 aparições nas finais com 6 MVPs de Finais. Jordan criou template moderno do superastro completo — algo que Russell, jogando décadas antes da era da televisão global e marketing esportivo, simplesmente não poderia atingir mesmo querendo. O GOAT moderno precisa ser showman, ícone cultural, máquina de marketing além de campeão. Russell era introvertido, evitava holofotes, focava exclusivamente em vencer. Sua personalidade e época não permitiam construir legado midiático que Jordan estabeleceu como padrão.
6. Falta de registro visual
Poucos jogos de Russell foram televisionados nacionalmente ou preservados em qualidade decente. A maioria do footage disponível é preto-e-branco granulado, ângulos ruins, sem replays ou análises. Gerações atuais não podem assistir seus jogos facilmente no YouTube ou streaming, completamente diferente de Jordan, Kobe ou LeBron cujas carreiras foram meticulosamente documentadas em alta definição com múltiplas câmeras. Sem imagens acessíveis, Russell vira conceito abstrato discutido por historiadores, não ídolo vivo cujos feitos as pessoas podem testemunhar. É impossível sentir conexão emocional com jogador que você nunca viu realmente jogar, apenas leu estatísticas em livros antigos.
Apesar de não ser consenso como GOAT, Russell é universalmente respeitado por todos conhecedores sérios de basquete. Em 2022, a NBA aposentou seu número 6 em todas as 30 equipes — honra anteriormente exclusiva de Jackie Robinson no baseball, reconhecendo impacto tanto dentro quanto fora das quadras. Seu legado transcende estatísticas: foi pioneiro da luta por direitos civis, participou da Marcha em Washington em 1963 ao lado de Martin Luther King Jr., usou plataforma para confrontar racismo mesmo quando isso custava popularidade. Foi líder silencioso mas firme, vencedor absoluto que entendia basquete como arte coletiva.
O debate GOAT moderno privilegia excessivamente métricas ofensivas individuais, impacto midiático e era contemporânea com melhor documentação. Russell dominou categoria completamente diferente: vitórias consistentes em equipe, defesa transcendental que mudou como o jogo é jogado, liderança intangível que elevava todos ao redor. Talvez a pergunta não deveria ser "por que Russell não é considerado GOAT?", mas sim "nossa definição atual de GOAT é realmente justa e abrangente o suficiente para avaliar grandeza através de diferentes eras?"