Moda

Havaianas: de item popular a símbolo de moda global

Em 1962, a Alpargatas lançou o primeiro par de Havaianas no Brasil, inspirado na sandália japonesa zori — tira em V, solado de borracha, uma textura na palmilha que imitava grão de arroz em homenagem à raiz oriental do design. A proposta era simples e deliberadamente popular: calçado acessível e durável para a classe trabalhadora, vendido em caminhão, feira e balcão de loja de bairro, distribuído até em kit promocional para fixar a marca fora dos grandes centros.

 

Por décadas, o chinelo carregou exatamente o estigma que o preço baixo costuma impor no Brasil: item associado ao trabalho doméstico, ao uso informal dentro de casa, a um consumidor de baixa renda — o famoso "chinelo de empregada" do imaginário popular, usado como piada ou como marcador silencioso de classe. Nos anos 1980, o governo brasileiro chegou a incluir a Havaianas na lista de produtos com preço tabelado pelo Ministério da Fazenda, ao lado de itens de primeira necessidade como arroz e feijão — o tipo de política pensada para produto essencial popular, não para item de desejo. Na década seguinte, a marca chegou a flertar com a irrelevância, presa numa percepção de produto "barato demais" que ameaçava seu próprio espaço de mercado.

A virada começou por acidente, não por estratégia: em 1969, um erro de produção fez um lote inteiro sair verde em vez do tradicional azul e branco. Em vez de descartar o lote, a Alpargatas colocou-o à venda — e ele virou febre instantânea, abrindo caminho para novas cores. Décadas depois, em 1994, consumidores começaram, por conta própria, a virar a sola do chinelo do avesso para exibir a cor viva por baixo em vez do branco tradicional por cima — um gesto espontâneo de customização que a marca rapidamente absorveu, lançando a linha
Top, monocromática e colorida, reconhecendo oficialmente uma tendência que o próprio consumidor tinha inventado nas ruas.

 

O verdadeiro ponto de virada estratégica aconteceu nos anos 1990: em vez de tentar apagar a origem popular do produto — movimento comum quando uma marca tenta subir de categoria —, a Alpargatas decidiu transformar essa origem em valor central da comunicação. As campanhas passaram a reforçar justamente a fabricação 100% nacional como explicação para o preço acessível, criando senso de pertencimento em vez de vergonha de classe. Foi essa decisão — assumir a raiz popular como ativo, não como problema a esconder — que abriu caminho para a internacionalização: participação em semana de moda em Paris, Milão e Nova York, coleções com estampa de grife como Missoni, Valentino e Saint Laurent, loja conceito na Rua Oscar Freire em São Paulo com sandália cravejada de cristal Swarovski ao lado do modelo básico de sempre.

Celebridades como Jennifer Aniston, David Beckham e Gisele Bündchen ajudaram a consolidar essa nova percepção internacional, e a marca soube usar o próprio contraste como parte da narrativa: o mesmo chinelo vendido por poucos reais numa banca de praia também aparece em kit personalizado de convidado no Festival de Cannes. Hoje a Havaianas vende mais de 200 milhões de pares por ano, com cerca de 16% destinados ao mercado externo, presente em mais de cem países — prova de que um item nascido para ser o mais básico possível pode carregar, ao mesmo tempo, dois significados de classe completamente opostos, sem que um cancele o outro.