Música

Alchemist e Prodigy: quase vinte anos de parceria

Poucas parcerias entre rapper e produtor no hip hop sustentaram quase vinte anos de trabalho contínuo com o nível de confiança mútua que Prodigy, metade do lendário duo Mobb Deep, e The Alchemist construíram ao longo da carreira de ambos.

Os dois se conheceram através de uma conexão indireta com
DJ Muggs, produtor do Cypress Hill que funcionava, à época, como mentor de Alchemist ainda no início de carreira. Um afiliado próximo do Mobb Deep, ligado ao grupo Big Twinz, recomendou que Alchemist viajasse até Nova York especificamente pra trabalhar com Prodigy — e, segundo relato do próprio produtor em entrevistas posteriores, quase imediatamente os dois começaram a produzir material juntos, sem cerimônia nem período longo de adaptação. Prodigy chegou a comentar, anos depois, que soube reconhecer o talento de Alchemist depois de ouvir apenas dez segundos de um beat dele — reconhecimento imediato que se transformaria em parceria de longuíssimo prazo.

O primeiro fruto documentado dessa conexão apareceu no álbum
Murda Muzik (1999), do Mobb Deep, incluindo a faixa "The Realest", com participação de Kool G Rap — uma faixa de produção contida e sombria que já antecipava o tipo de textura sonora que se tornaria assinatura de Alchemist nas décadas seguintes. A partir daí, Alchemist se tornaria peça central não só nos discos seguintes do próprio Mobb Deep, como também em praticamente toda a carreira solo de Prodigy, produzindo faixa após faixa ao longo de mais de duas décadas de trabalho conjunto.

 

A parceria rendeu dois projetos colaborativos completos e integrais: Return of the Mac (2007), lançado num momento em que boa parte da crítica já via Prodigy e Havoc como "mestres do passado", numa fase comercialmente mais fraca da carreira do Mobb Deep — e que acabou funcionando como verdadeiro retorno de forma, surpreendendo quem já tinha, silenciosamente, parado de esperar coisa nova relevante da dupla. Seis anos depois veio Albert Einstein (2013), lançado numa fase em que Prodigy, recém-saído de um período de três anos preso por posse ilegal de arma de fogo, reconstruía a própria carreira, enquanto Alchemist consolidava de vez o próprio nome como um dos produtores mais respeitados e versáteis da cena underground americana.

A crítica especializada descreveu o som de
Albert Einstein como cinematográfico, quase de cinema noir — como se décadas de vinil empoeirado e livro pulp de crime, com lombada rachada, tivessem sido fundidos e sintetizados em forma sonora. Prodigy reformula o próprio flow no disco, quase falando as rimas com determinação resoluta e arestas ásperas, enquanto Alchemist constrói paisagem sonora sombria e psicodélica sob medida pra esse tom. O álbum reuniu ainda participações de peso, como Raekwon, Action Bronson, Domo Genesis — do coletivo Odd Future — e o próprio Havoc, parceiro histórico de Prodigy no Mobb Deep, na faixa "R.I.P.", construída sobre sample de E.S.G.

 

Prodigy morreu em junho de 2017, aos 42 anos, por complicações relacionadas à anemia falciforme — condição genética que ele carregava desde o nascimento e que discutiu abertamente em entrevistas e na própria autobiografia, My Infamous Life, publicada em 2011. A parceria com Alchemist, que já passava de duas décadas quando Prodigy morreu, é hoje lembrada, por crítica e por fã, como uma das relações mais consistentes e genuínas entre MC e produtor em toda a história do hip hop nova-iorquino — não pela quantidade de hits comerciais gerados, mas pela raridade de uma dupla que manteve o mesmo nível de confiança criativa por praticamente toda uma geração de carreira.

 

Vale registrar que, em paralelo à parceria com Prodigy, Alchemist construiu uma das carreiras de produção mais prolíficas e versáteis do hip hop contemporâneo, trabalhando com nomes tão distintos quanto Eminem, Nas, Freddie Gibbs, Action Bronson e Earl Sweatshirt — uma amplitude estilística que raramente aparece em produtores tão fortemente associados a um parceiro específico. É essa capacidade de manter identidade sonora reconhecível trabalhando com artistas completamente diferentes entre si que consolidou Alchemist como um dos nomes mais respeitados por trás das câmeras do hip hop americano — e que torna a parceria de duas décadas com Prodigy ainda mais notável: em meio a uma carreira de colaborações constantes com dezenas de nomes, a relação com o parceiro do Mobb Deep segue sendo tratada, por ambos os lados, como algo à parte. Prodigy, do seu lado, também nunca dependeu exclusivamente de Alchemist — construiu discografia solo extensa desde o fim dos anos 90, incluindo a série H.N.I.C., além de manter o próprio Mobb Deep ativo ao lado de Havoc em paralelo a todos esses projetos. É justamente esse contexto de dois artistas plenamente capazes de trabalhar sozinhos, ou com qualquer outro parceiro, que torna a escolha recorrente de voltar um pro outro tão significativa: não era necessidade profissional, era preferência genuína por uma combinação que os dois sabiam, desde o início, que funcionava melhor que qualquer alternativa disponível.