O Gênero Esquecido que Conquistou o Mundo Através do Algoritmo
City Pop — gênero pop japonês sofisticado que floresceu vibrante entre 1975 e 1989 durante o milagre econômico japonês — ressurgiu espetacularmente nos anos 2010 através do YouTube e seu algoritmo misterioso, conquistando milhões de fãs fervorosos ao redor do mundo que nunca pisaram no Japão e nasceram décadas após o auge do estilo, provando que música excepcional transcende completamente barreiras de língua, geografia e tempo.
City Pop é fusão sofisticada e extremamente bem produzida de pop acessível, funk grooveado, R&B suave, jazz fusion virtuoso e disco dançante que trilhou sonoramente a vida urbana de Tóquio durante o boom econômico japonês dos anos 80. Artistas seminais como Tatsuro Yamashita, Mariya Takeuchi, Anri, Junko Ohashi, Taeko Ohnuki e a banda de jazz fusion Casiopea criaram som consistentemente otimista, elegante e cosmopolita que refletia perfeitamente a prosperidade crescente, modernização acelerada e confiança cultural do Japão em seu auge econômico antes da bolha estourar brutalmente em 1991.
Musicalmente, City Pop se caracteriza por produção impecável que aproveitou era dourada dos estúdios analógicos japoneses com orçamentos generosos, arranjos complexos e densos com instrumentação ao vivo de músicos de sessão virtuosos, harmonias vocais sofisticadas claramente influenciadas por jazz e música brasileira, uso expressivo de sintetizadores analógicos icônicos como Yamaha DX7 e Roland Juno-106, linhas de baixo funkeadas e slapped que ancoram os grooves, e vocais suaves e melódicos que flutuam sobre a instrumentação rica. As letras tipicamente falam de romance idealizado, vida noturna glamourosa, verão eterno, praias ensolaradas e a experiência urbana moderna vista através de lente consistentemente otimista e aspiracional.
"Plastic Love" e a Viralização Acidental de um Passado Idealizado
O ressurgimento começou de forma completamente orgânica e não-planejada por volta de 2015 quando o algoritmo do YouTube começou misteriosamente a recomendar músicas japonesas dos anos 80 para usuários interessados em vaporwave, lo-fi hip hop beats to study/relax to, e música retrô em geral. "Plastic Love" de Mariya Takeuchi, lançada originalmente em 1984 como lado B e essencialmente esquecida no próprio Japão por décadas, acumulou eventualmente mais de 80 milhões de visualizações após um upload simples em 2017 com arte nostálgica capturar perfeitamente a estética que o YouTube estava algoritmicamente pronto para abraçar. Seu sucesso viral foi completamente acidental — não houve campanha de marketing, investimento promocional ou estratégia deliberada, apenas música excepcional encontrando audiência global através de recomendações algorítmicas misteriosas.
"Mayonaka no Door / Stay With Me" de Miki Matsubara, lançada em 1979, viralizou massivamente décadas depois ao ser usada em trends do TikTok em 2020, introduzindo City Pop para geração ainda mais jovem da Gen Z que descobriu o gênero através de vídeos curtos e danças virais. "4:00 A.M." de Taeko Ohnuki, peça de jazz fusion sofisticada de 1977, se tornou favorita entre audiófilos obcecados por qualidade sonora e produtores musicais estudando arranjos complexos.
A conquista global do City Pop pode ser atribuída a vários fatores culturais e psicológicos convergentes. A nostalgia por era nunca vivida pessoalmente é fenômeno poderoso: Millennials e Gen Z idealizam romanticamente os anos 80 — época pré-internet, pré-smartphones e pré-redes sociais vista retrospectivamente como mais autêntica, genuinamente otimista e esteticamente mais rica que a contemporaneidade saturada digitalmente. City Pop oferece portal sonoro direto para esse passado imaginado e idealizado, onde o futuro parecia brilhante e ilimitado.
A estética visual perfeita das capas de álbuns, especialmente as ilustrações icônicas de Eizin Suzuki e Hiroshi Nagai mostrando piscinas infinitas, palmeiras tropicais, pores-do-sol impossíveis e arquitetura modernista aspiracional, criam atmosfera sedutora de verão eterno e luxo casual que se alinha perfeitamente com vaporwave e o culto contemporâneo pela cultura visual dos anos 80. Essa estética visual tornou-se inseparável da música, com thumbnails do YouTube replicando obsessivamente esse look. A qualidade excepcional de produção, resultado da era dourada dos estúdios analógicos japoneses onde orçamentos eram generosos e tempo era abundante, contrasta marcadamente com a produção digital moderna frequentemente excessivamente comprimida, normalizada agressivamente e sonoramente cansativa.
Artistas Essenciais, Impacto Cultural e a Economia da Nostalgia
Tatsuro Yamashita é universalmente reconhecido como o rei indiscutível do City Pop. Álbuns como "For You" (1982), "Melodies" (1983) e "Big Wave" (1984) são obras-primas absolutas do gênero que definiram o som. Faixas como "Sparkle", "Love Space" e "Ride on Time" são essenciais para qualquer entendimento do estilo. Sua esposa Mariya Takeuchi, autora de "Plastic Love" que se tornou hino não oficial do gênero inteiro, possui voz suave característica e composições melódicas que definem perfeitamente o lado romântico do City Pop.
Anri com álbuns como "Last Summer Whisper" (1983) e "Timely!!" (1983) capturou perfeitamente a energia efervescente de verão-juventude-romance que caracteriza o gênero. Casiopea, banda de jazz fusion instrumental virtuosa, criou faixas como "Asayake" que se tornaram trilha sonora perfeita para produtividade focada e relaxamento consciente. Omega Tribe com "Aqua City" e "君は1000%" são essenciais para qualquer playlist introdutória de City Pop.
O ressurgimento do City Pop influenciou profunda e diretamente a produção musical mainstream contemporânea. The Weeknd em "Blinding Lights", Dua Lipa em todo o álbum "Future Nostalgia", e Bruno Mars em várias produções incorporam elementos claros de City Pop: sintetizadores característicos, grooves funkeados e produção retrô-futurista. O gênero lo-fi hip hop "beats to relax/study to" que domina YouTube e Spotify frequentemente samplea City Pop diretamente, criando descendente sonoro direto. Vaporwave e Future Funk, subgêneros eletrônicos experimentais, sampleiam e remixam City Pop extensivamente, criando estética retrofuturista que questiona linearidade temporal e nostalgia digital.
O revival criou mercado secundário lucrativo e às vezes especulativo: discos de vinil de City Pop que literalmente custavam centavos em sebos japoneses nos anos 2000 agora são regularmente vendidos por centenas ou até milhares de dólares em plataformas como Discogs e eBay. Reedições oficiais em vinil esgotam em horas ou minutos. Festivais temáticos dedicados a City Pop e música japonesa dos anos 80 acontecem regularmente na Ásia, Europa e América do Norte, atraindo milhares de fãs dedicados.
Streaming também beneficiou inesperadamente artistas originais décadas após seus lançamentos: Mariya Takeuchi, semi-aposentada da música por anos, voltou a fazer shows esgotados após "Plastic Love" viralizar massivamente. Tatsuro Yamashita, que havia resistido teimosamente ao streaming digital por anos por princípio e preocupações com qualidade sonora, finalmente disponibilizou seu catálogo completo em plataformas em 2023, reconhecendo a realidade da descoberta musical contemporânea.
City Pop provou conclusivamente que música de qualidade genuína é verdadeiramente atemporal, transcendendo completamente décadas, fronteiras geográficas e barreiras linguísticas. Décadas após ser considerado datado, comercial e culturalmente irrelevante no próprio Japão dos anos 90 e 2000, o gênero encontrou nova vida vibrante e audiência global massiva que o valoriza precisamente pelas qualidades que foram anteriormente criticadas. Para geração crescida nativamente em streaming, sem amarras geográficas ou temporais limitando descoberta musical, City Pop é simplesmente música excepcional — e isso, finalmente, é suficiente.