Esporte

Por Que Mike Tyson Carrega Che Guevara e Mao Tsé-Tung na Pele

Mike Tyson, o lendário ícone do boxe, carrega em seu corpo tatuagens dos revolucionários Che Guevara e Mao Tsé-Tung, figuras centrais do comunismo mundial. Mas o que leva um ídolo do esporte, marcado pela agressividade e superação, a eternizar líderes comunistas em sua pele?

Entre 1992 e 1995, durante sua passagem pela prisão, Tyson mergulhou em leituras profundas que transformariam sua visão de mundo. Biografias e escritos de Che Guevara e Mao Tsé-Tung não chegaram até ele por acaso: o isolamento forçado tornou-se um período de reflexão intensa, onde o ex-campeão encontrou espelhos de sua própria revolta em figuras que desafiaram sistemas inteiros. "A leitura de Mao foi como encontrar força na autoridade, mas também na rebeldia contra o sistema que me marginalizou", afirmou em entrevistas.

Esse encontro intelectual acontecia enquanto Tyson enfrentava suas próprias batalhas — contra o racismo, a exclusão social que marcara sua infância em Brooklyn e a violência institucional. Nas páginas desses livros, ele descobriu não apenas teoria política, mas narrativas de resistência que ecoavam sua trajetória pessoal.

As tatuagens resultantes dessas leituras carregam significados precisos. No abdômen esquerdo, Tyson eternizou o rosto de Che Guevara, baseado na clássica fotografia de Alberto Korda. Para o boxeador, Che representa o sacrifício pelo coletivo — uma ideia rara no universo individualista do esporte profissional. “Alguém que sacrificou tudo por uma causa maior”, como ele mesmo definiu.

No bíceps direito, Mao Tsé-Tung surge como símbolo de poder, disciplina e resistência. O impacto dessa figura foi tão profundo que Tyson confessou ter se sentido “realmente insignificante” diante do corpo de Mao, reconhecendo o peso histórico e a autoridade que o líder chinês representava. Essas escolhas transcendem a estética. Transformando o próprio corpo em manifesto, Tyson expressa uma raiva visceral contra as estruturas de poder que o marginalizaram, usando símbolos comunistas como marcas pessoais de protesto e admiração. O boxeador também afirmou ter tatuado Che antes da “febre” pop do símbolo, antecipando um movimento que transformaria esses ícones revolucionários em fenômenos visuais globais.

As tatuagens de Tyson provocam debates acalorados sobre apropriação e ressignificação de símbolos políticos. Afinal, é possível admirar o símbolo sem aderir a toda a história? As contradições são evidentes: tanto Guevara quanto Mao são figuras complexas — o médico argentino tornou-se símbolo global de resistência após a Revolução Cubana, enquanto Mao, apesar de reverenciado por sua liderança na Revolução Chinesa, é duramente criticado por episódios de repressão e violência durante seu governo. Para Tyson, essas contradições não diminuem o valor simbólico. Ele vê nesses líderes uma espécie de espelho de combate, figuras que desafiaram sistemas e inspiram resistência — qualidades que ressoam profundamente com sua própria experiência como lutador que veio das ruas e enfrentou o establishment a seu modo.

A pele de Tyson torna-se, assim, território de disputa estética e ideológica: arte, política e história se misturam em cicatrizes de luta, transformando ideologia em expressão corporal e conectando o boxe — esporte de origem periférica — a uma tradição mais ampla de resistência através da arte visual.

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