Cinema e TV

Spike Lee e o cinema como ato político

Quando Spike Lee coloca a câmera num trilho e filma um personagem deslizando pelo espaço como se flutuasse — os pés não tocam o chão, o corpo se move sem fricção com o mundo — ele não está apenas fazendo uma escolha de fotografia. Está construindo uma declaração sobre como aquele personagem existe no espaço: suspenso entre mundos, sem chão fixo, deslocado de uma realidade que nunca foi inteiramente sua. É um recurso técnico que é também uma afirmação filosófica sobre pertencimento, deslocamento e a experiência negra num mundo que foi construído por e para outra gente. O nome desse recurso é dolly shot ou tracking shot, e Spike Lee o usa com uma frequência e uma especificidade tão reconhecíveis que o movimento ficou associado ao seu nome.

Faça a Coisa Certa, lançado em 1989, é provavelmente o filme americano mais importante das últimas quatro décadas, e é importante precisamente porque se recusa a fazer o que filmes sobre racismo costumam fazer: oferecer conforto. Não há vilão facilmente identificável. Não há herói sem contradições. A violência que explode no final do filme não é preparada como catarse — é preparada como inevitabilidade, e quando acontece, o espectador não sente alívio, sente culpa e raiva e a sensação incômoda de não saber exatamente quem é a culpa. E então vêm as duas epígrafes finais — uma de Martin Luther King sobre a violência como força destrutiva, uma de Malcolm X defendendo a autodefesa — e em vez de resolver a tensão, o filme a aprofunda. Você sai sem saber o que pensar. Esse é o ponto.

A formação de Spike Lee no NYU Film School nos anos 1980 foi crucial para a construção da sua linguagem. Ele estudou não apenas técnica, mas a relação entre forma e conteúdo em cineastas como Kurosawa, Fellini, Godard e Scorsese — e entendeu, antes de muitos dos seus contemporâneos, que essas duas dimensões são inseparáveis. Você não pode contar uma história sobre racismo com uma linguagem cinematográfica que reproduz os padrões visuais criados para contar histórias sobre brancos. A câmera tem perspectiva. A montagem tem perspectiva. A trilha sonora tem perspectiva. Cada decisão formal é uma declaração sobre quem está no centro do mundo que o filme representa.

Essa consciência se manifesta ao longo de toda a obra de Lee de formas específicas e rastreáveis. A colaboração com o diretor de fotografia Ernest Dickerson nos primeiros filmes produziu uma paleta visual que era deliberadamente saturada, quente, vibrante — uma recusa explícita ao desaturado e ao cinza que o realismo social americano havia adotado como código de 'seriedade'. As composições enquadram os personagens negros com centralidade e dignidade, sem exotismo. A música — que frequentemente é de Terence Blanchard, colaborador de décadas — dialoga com a imagem em vez de apenas comentá-la. A montagem às vezes quebra o ritmo esperado para criar desconforto proposital.

Em Malcolm X (1992), Lee pegou a tarefa aparentemente impossível de condensar em três horas e meia a trajetória de um dos personagens mais complexos da história americana do século XX e encontrou uma solução formal elegante: estruturar o filme como uma série de renascimentos, cada fase da vida de Malcolm marcada por uma estética visual distinta. O Malcolm jovem e criminoso dos anos 1940 é filmado com a exuberância e o excesso cromático do jazz e das discotecas de Harlem. O Malcolm da prisão, convertendo-se ao Islã, é filmado com austeridade crescente. O Malcolm dos últimos anos, viajando pelo mundo e expandindo sua visão política, é filmado com uma abertura visual que corresponde à abertura intelectual do personagem. A câmera conta a história que o roteiro não precisa verbalizar.

BlacKkKlansman (2018) é talvez o exemplo mais perturbador da disposição de Lee em usar o cinema como arma. O filme começa como comédia policial dos anos 1970 — absurda, divertida, bem-sacada — e vai, progressivamente, trocando o tom debaixo dos pés do espectador. A infiltração de Ron Stallworth na Ku Klux Klan começa parecendo um procedimento policial glorioso e vai revelando camadas de ambiguidade e violência que o gênero de comédia não consegue mais conter. E então, no final, Lee abandona completamente a ficção. Corta para as imagens reais de Charlottesville em agosto de 2017 — os carros na multidão, as tochas na noite, os rostos brancos gritando. O efeito é devastador precisamente porque chega depois de duas horas em que o espectador havia se permitido a distância segura do filme de época.

Em 2020, Da 5 Bloods usou o gênero do filme de guerra como enquadramento para uma conversa sobre o que os soldados negros americanos ganharam e o que perderam ao servir um país que os discriminava. Lee usa flashbacks filmados em proporção 4:3 para o presente e 16:9 para os flashbacks — uma inversão da convenção, que reserva o formato mais expansivo para o passado traumático. Cada decisão formal amplifica o que está em jogo tematicamente.

Mas talvez o aspecto mais importante da obra de Spike Lee seja o que ela revela sobre a sustentabilidade do cinema político independente no sistema americano. Lee nunca teve acesso fácil ao mainstream de Hollywood — seus filmes raramente recebem os orçamentos que a grandeza das suas ambições justificaria, e ele passou boa parte da carreira financiando projetos através de crowdfunding e de co-produções internacionais. Essa posição marginal em relação à indústria não foi apenas um inconveniente: foi constitutiva de uma voz que permaneceu mais livre e mais honesta do que teria sido possível dentro do sistema. O que Spike Lee perdeu em recursos, ganhou em integridade. E no cinema político, a integridade é o único recurso que não pode ser alugado.