Poucos objetos carregam uma trajetória simbólica tão improvável quanto o béret. É um chapéu de lã simples, sem aba, sem estrutura interna, produzido com mínima complexidade técnica e originalmente usado por pastores e camponeses do País Basco e do sul da França para se proteger do frio das montanhas. Era uma peça funcional, barata, sem pretensão estética — o tipo de objeto que não deveria aparecer em nenhuma história sobre cultura, política ou identidade. E no entanto, ao longo do século XX, o béret passou pela cabeça de guerrilheiros latinoamericanos, pela cabeça de intelectuais parisienses do pós-guerra, pela cabeça de militantes dos Panteras Negras e pela cabeça de modelos em editoriais de luxo, carregando em cada contexto uma camada diferente de significado que não cancelou, mas se sobrepôs às camadas anteriores.
A primeira grande transformação simbólica do béret aconteceu não na política, mas no exército. A partir do século XIX, os militares franceses começaram a distribuir bérets para unidades específicas — primeiro os Chasseurs Alpins, tropas de montanha especializadas em combate em altitude, depois outras unidades de elite. A transição do béret de roupa de camponês para uniforme de soldado de elite foi uma mudança de significado radical: o mesmo objeto que sinalizava rusticidade e humildade passou a sinalizar competência em terrenos difíceis, adaptabilidade, presença nos lugares perigosos onde outros não chegavam.
Esse vocabulário militar do béret cruzou o Atlântico no século XX e ganhou conotações específicas no contexto da Guerra Fria. Os boinas verdes americanos — US Army Special Forces — adotaram o béret verde como parte do uniforme em 1961, depois de resistência inicial da hierarquia militar que considerava o chapéu muito europeu e pouco americano. O presidente Kennedy, ao visitar uma unidade de Forças Especiais em 1961, aprovou pessoalmente o uso do béret verde como símbolo de elite, de missão especial, de gente que opera fora dos procedimentos convencionais. A aprovação de Kennedy deu ao béret verde americano uma aura que persiste até hoje — e que foi cuidadosamente explorada pela indústria de entretenimento nas décadas seguintes.
Mas o béret que entrou para o imaginário global com mais força não foi o militar americano — foi o de Ernesto Che Guevara, na fotografia tirada por Alberto Korda em março de 1960, durante um funeral de estado em Havana. O enquadramento, a iluminação, a expressão — todos contribuíram para criar uma imagem de intensidade extraordinária. O béret preto na cabeça de Guevara, com a estrela de cinco pontas, tornou-se parte de uma das imagens mais reproduzidas na história da fotografia. Camisetas, posteres, grafites, murais: a imagem de Korda foi impressa em mais superfícies do que qualquer outro retrato político do século XX, incluindo os de Lenin e Mao.
O que aconteceu com o béret de Guevara ao longo das décadas seguintes é um exemplo perfeito do processo que o teórico Stuart Hall chamava de 'esvaziamento do significante': a forma permanece, o conteúdo se evapora. O béret virou produto de mercado de pulgas, item de decoração de quarto universitário, estampa de camiseta vendida nas mesmas lojas que vendem camisetas de bandas que o próprio Guevara jamais ouviria. A revolução cubana, a luta armada, a utopia latinoamericana — tudo isso foi paulatinamente substituído por uma estética genérica de rebeldia. O béret ficou. A história saiu.
O outro béret do século XX que merece atenção detalhada é o dos Panteras Negras. Quando o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa foi fundado em Oakland em outubro de 1966 por Huey P. Newton e Bobby Seale, a escolha do uniforme — jaqueta de couro preta, béret preto, às vezes fuzil carregado à vista — foi deliberada e precisa. Cada elemento do uniforme foi pensado para comunicar algo específico: seriedade, disciplina, poder, a reivindicação do direito à autodefesa que a Segunda Emenda garantia no papel a todos os cidadãos americanos mas que a sociedade americana nunca havia estendido de fato à população negra.
O béret preto dos Panteras não era decorativo — era uma declaração de que aqueles corpos negros se organizavam com a mesma disciplina e a mesma seriedade com que as instituições que os oprimiam se organizavam. Era uma resposta visual ao argumento de que negros americanos eram permanentemente desorganizados, emocionais, incapazes de ação política coerente. O béret dizia: aqui há disciplina. Aqui há projeto. Aqui há prontidão.
Hoje o béret aparece nas coleções de outono de marcas como Chanel, Hermès e Gucci como item de 'heritage francesa', com preços que começam em algumas centenas de euros e chegam a alguns milhares. O camponês basco que usava o mesmo chapéu para se proteger do frio nas montanhas dos Pireneus não aparece nos créditos. A luta armada latinoamericana tampouco. Os Panteras Negras também não. A moda tem esse talento específico e consistente: pegar a carga histórica de um objeto, esvaziar o conteúdo que torna essa carga incômoda, e vender a forma resultante como elegância atemporal.