Existe uma palavra para o que a Zara faz, mas a indústria da moda construiu ao longo de décadas um vocabulário alternativo que suaviza o desconforto de usá-la. A palavra é cópia. Os eufemismos preferidos são 'inspiração', 'tendência interpretada', 'democratização do estilo', 'versão acessível'. Mas quando uma peça sai da passarela de uma grife de luxo em fevereiro e aparece numa loja Zara em abril, traduzida em poliéster a um quinto do preço original, o debate semântico parece honesto por apenas alguns segundos antes de revelar sua função: proteger uma prática economicamente vantajosa do escrutínio ético que ela merece.
O modelo de negócio da Inditex — o grupo espanhol fundado por Amancio Ortega que controla a Zara e outras sete marcas — foi construído especificamente sobre a capacidade de reduzir ao máximo o tempo entre uma tendência emergindo numa passarela e essa tendência chegando às prateleiras de uma loja em qualquer shopping center do mundo. Quando a Zara foi fundada em 1975 na Galícia, o ciclo padrão da indústria da moda era de seis a doze meses entre o design e a venda. A Inditex, ao longo dos anos seguintes, comprimiu esse ciclo para menos de três semanas. É um feito logístico extraordinário — e um problema ético considerável.
O problema tem pelo menos três dimensões que raramente são discutidas juntas. A primeira é o impacto nos pequenos designers. Quando uma grife de luxo investe em pesquisa criativa, em experimentação de materiais, em desenvolvimento de uma estética reconhecível, esse investimento tem um retorno esperado: ser a referência da tendência que criou. Quando a Zara chega com uma cópia em quatro semanas, o retorno não some — mas é drasticamente reduzido. Para as grandes grifes, isso é incômodo mas administrável. Para os designers independentes e as marcas emergentes, que às vezes sustentam sua operação inteira na expectativa de retorno de uma coleção inovadora, a velocidade da cópia pode ser existencialmente ameaçadora.
A segunda dimensão é ambiental, e é a mais documentada. A Inditex lança hoje entre 10.000 e 20.000 novos modelos por ano. Essa quantidade de novidade exige uma quantidade equivalente de obsolescência: roupas que eram tendência em março precisam parecer velhas em junho para que o ciclo continue girando. O resultado é uma quantidade massiva de têxtil descartado — em aterros, em países do Sul Global que recebem as exportações de segunda mão do Ocidente, em rios e oceanos onde os produtos químicos do tingimento industrial chegam via efluentes industriais. A indústria da moda é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono, e o fast fashion que a Zara ajudou a sistematizar é parte central dessa conta.