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O estilo visual de Blade Runner ainda define a estética de cidades?

Blade Runner foi lançado em junho de 1982 e foi, por qualquer métrica comercial convencional, um fracasso. Custou 28 milhões de dólares e arrecadou pouco mais disso nos Estados Unidos — resultado insuficiente para uma produção desse porte. As críticas foram divididas. O estúdio, preocupado com a reação das primeiras sessões de teste, havia imposto a Ridley Scott um final alternativo com cenas de natureza aérea que o diretor considerava artisticamente desonesto. Scott saiu da pós-produção frustrado. Harrison Ford, que havia feito Han Solo e Indiana Jones, ficou confuso sobre o que havia feito. O filme parecia, em 1982, uma aposta perdida.

O que aconteceu nas décadas seguintes é um dos casos mais fascinantes de reassessment na história do cinema. O VHS levou Blade Runner para uma segunda vida nas locadoras e nas televisões dos anos 1980, onde foi descoberto por gerações de espectadores que não o haviam visto no lançamento. Cineastas, designers, músicos, escritores de ficção científica começaram a citar o filme como referência central. Quando a versão do diretor foi lançada em 1992 — sem a voz over de Ford, sem o final açucarado, com uma pergunta sobre a humanidade do protagonista deixada deliberadamente em aberto — funcionou como confirmação do que os fãs já haviam intuído: havia mais profundidade ali do que a recepção original havia permitido perceber.

A influência visual de Blade Runner não é uma questão de gosto cinéfilo — é documentável no ambiente construído. A Los Angeles de 2019 que Scott e os designers criaram — baseada nas visões do designer de produção Lawrence G. Paull, nas fotografias futuristas de Syd Mead, na iluminação de Jordan Cronenweth — combinou elementos específicos que, juntos, criaram uma linguagem visual que se provou imensamente fecunda: a densidade vertical extrema, as camadas sobrepostas de usos diferentes num mesmo espaço, a coexistência de tecnologia de ponta e infraestrutura deteriorada, os anúncios luminosos em múltiplas línguas cobrindo as superfícies arquitetônicas.

Tóquio à noite — especialmente bairros como Kabukicho e Shinjuku — é frequentemente descrita como a cidade real que mais se parece com Blade Runner, e a observação não é imprecisa. A densidade, o neon, a sobreposição de eras arquitetônicas, a mistura de elegância extrema e decadência visível: são elementos que Blade Runner capturou a partir da fotografia de cidades asiáticas dos anos 1970 e 1980, e que as próprias cidades asiáticas continuaram desenvolvendo nas décadas seguintes sem nenhuma referência consciente ao filme. Hong Kong, antes de 1997, era talvez ainda mais Blade Runner do que Tóquio — com o Kowloon Walled City, aquela estrutura de densidade humana vertiginosa que foi demolida em 1994, como a imagem mais próxima que o mundo real produziu do imaginário do filme.

Mas a influência de Blade Runner vai além das cidades asiáticas. É uma linguagem visual que permeou o design de interiores, a fotografia publicitária, a cenografia de videoclipes, a estética de jogos. Cyberpunk 2077, lançado em 2020, é Blade Runner expandido num videogame com 50 anos de desenvolvimento tecnológico disponível. A série Dark da Netflix usa a paleta de cores e a lógica de estratificação espacial de Blade Runner para construir uma Alemanha alternativa. Interiores de escritórios de startups tech em São Francisco e em São Paulo que querem sinalizar 'futuro' usam o concreto exposto, as superfícies reflexivas e a iluminação pontual que Ridley Scott e Jordan Cronenweth inventaram para uma ficção científica dos anos 1980.

O que explica essa longevidade extraordinária? Em parte, a qualidade técnica do trabalho: as decisões visuais de Blade Runner foram feitas com suficiente rigor e coerência interna para criar um mundo que tem lógica própria, que parece habitável, que não revela suas costuras. Em parte, a pertinência do diagnóstico: Blade Runner descreveu uma forma específica de desenvolvimento urbano — a megacidade capitalista avançada, com sua estratificação social extrema, com seu capital cosmopolita flutuando sobre uma base de trabalho precarizado e invisível — que se provou mais precisa como antecipação do que como ficção.

As cidades do século XXI não se tornaram Blade Runner porque alguém as construiu seguindo o filme. Tornaram-se Blade Runner porque as forças que o filme identificou — a financeirização do espaço urbano, a concentração de riqueza, a pressão de grandes populações em infraestruturas insuficientes, a tecnologia como ornamento de desigualdade antes de ser ferramenta de distribuição — são as mesmas forças que moldaram o desenvolvimento urbano das últimas décadas. O filme era um diagnóstico disfarçado de ficção.

A ironia final é pesada: o estilo visual que retratava um futuro distópico tornou-se aspiracional. O neon que sinalizava alienação virou decoração de restaurante. A chuva constante que representava um meio ambiente destruído virou estética de trilha sonora lo-fi. A cidade rachada entre luxo e miséria virou objeto de desejo turístico. Há cidades no mundo onde turistas vão especificamente para fotografar a estética cyberpunk de ruas que, para quem mora nelas, são simplesmente a realidade de uma vida com menos recursos do que os turistas têm. Blade Runner não apenas previu o futuro — previu como nos relacionaríamos esteticamente com o presente quando o presente finalmente se tornasse o futuro que o filme havia retratado.