Cinema e TV

O que aconteceu com o cinema de autor dentro do streaming?

Em 2018, a Netflix tomou uma decisão que parecia, na época, sinalizar uma mudança de paradigma na indústria cinematográfica: pagou 25 milhões de dólares pelos direitos mundiais de Roma, o filme em preto e branco em espanhol e mixteco de Alfonso Cuarón, filmado no México City da infância do diretor, sem estrela, sem ação, sem estrutura narrativa que se encaixasse em qualquer categoria comercial conveniente. O filme ganhou o Oscar de Melhor Diretor e de Melhor Fotografia. Gerou cobertura de imprensa massiva. E sinalizou, para o mundo da cultura, que as plataformas de streaming estavam dispostas a fazer o que os grandes estúdios haviam parado de fazer: financiar visões pessoais ambiciosas.

O período de 2018 a 2022 foi de euforia para o cinema de autor dentro do streaming. A Netflix produziu ou co-produziu filmes de Martin Scorsese, de Jane Campion, de David Fincher, de Noah Baumbach, de Spike Lee. A Apple TV+ lançou produções de Sofia Coppola, de M. Night Shyamalan, de Chloe Zhao. O Amazon Prime Video investiu em filmes de cineastas internacionais de prestígio. A narrativa era sedutora: as plataformas, com suas receitas de assinatura, estavam libertas da dependência do box office que havia tornado os grandes estúdios cronicamente avessos ao risco. Finalmente, o cinema de autor tinha um lar no século XXI.

A narrativa era sedutora e, como a maioria das narrativas sedutoras sobre tecnologia e cultura, era mais complicada do que parecia. As plataformas não financiavam cinema de autor porque acreditavam no cinema de autor — financiavam porque o cinema de autor era um instrumento de construção de prestígio e de diferenciação competitiva num mercado onde a guerra pelo assinante estava se tornando cada vez mais cara e cada vez mais incerta. A diferença pode parecer acadêmica, mas tem consequências práticas enormes: quando os instrumentos de prestígio deixam de parecer eficientes para o objetivo que serviam, eles são descontinuados.

A virada começou a se manifestar em 2022 e 2023, quando o mercado de streaming passou por uma reavaliação severa. O crescimento acelerado dos anos de pandemia havia mascarado sinais de saturação que agora se tornavam visíveis: churn rates altas, dificuldade de converter assinantes em clientes fiéis de longo prazo, custos de produção de conteúdo que não encontravam retorno proporcional. As plataformas responderam com cortes — de conteúdo, de produtores, de orçamentos para projetos que não tinham perfil de audiência massa. O cinema de autor foi um dos primeiros a sentir os cortes.

O problema estrutural é que o streaming foi construído em torno de métricas que são fundamentalmente hostis ao cinema de autor. As plataformas medem sucesso em termos de horas assistidas, de taxa de conclusão e de impacto na aquisição e retenção de assinantes. Um filme como O Irlandês, de Scorsese — três horas e meia de drama policial histórico com atores de 70 anos falando sobre o passado — tem um perfil de engajamento completamente diferente de uma série de ação que mantém o espectador em loop por oito episódios. Os algoritmos que as plataformas usam para recomendar conteúdo foram treinados em dados de comportamento de audiência que sistematicamente privilegiam o familiar sobre o desafiador.

Há também a questão da experiência de exibição, que é mais relevante do que parece à primeira vista. O cinema de autor, em sua maioria, foi concebido para ser visto numa sala escura, em silêncio, num coletivo de estranhos que partilham uma experiência simultânea. Essas condições não são puramente estéticas — elas produzem um tipo de atenção que é diferente, qualitativa e não apenas quantitativamente, da atenção que um sofá e uma segunda tela permitem. Alguns filmes simplesmente não existem da mesma forma numa tela de laptop com subtítulas ativadas e notificações chegando. Quando o streaming se torna o único canal de acesso ao cinema de autor, perde-se algo real.

A MUBI foi a resposta do mercado a esse problema, e é uma resposta que merece mais atenção do que costuma receber. A plataforma foi fundada em 2007 com um modelo radicalmente diferente do Netflix: curadoria estrita, catálogo intencionalmente pequeno, um novo filme por dia por uma janela limitada de 30 dias. Em vez de oferecer infinidade de opções e deixar o algoritmo recomendar, a MUBI oferece uma seleção rigorosa construída por humanos que conhecem cinema — e confia que seu público quer qualidade, não quantidade. O modelo provou ser sustentável: a plataforma cresceu e hoje é um negócio lucrativo com audiência global.

O que a trajetória da MUBI demonstra é que existe público pagante para cinema de autor num ambiente digital — mas que esse público precisa de um intermediário que entenda o que está fazendo, que construa confiança através de curadorias consistentes, que trate a experiência de descoberta de filmes como uma prática cultural e não como uma otimização de algoritmo. Esse modelo é fundamentalmente incompatível com a lógica de escala que as grandes plataformas precisam para justificar suas avaliações de mercado.

O streaming não matou o cinema de autor. Fez algo talvez mais complicado: prometeu ser seu lar, convocou uma geração de diretores a confiar nas plataformas como parceiras criativas, e depois descobriu que a parceria era cara demais para manter quando as condições de mercado ficaram difíceis. O cinema de autor sobreviverá — sobreviveu a todas as crises anteriores da indústria. Mas talvez com a compreensão mais clara de que o streaming nunca foi o lar. Era apenas o último hotel numa longa série de estadias temporárias.