Cultura

A morte da crítica cultural

Em 2008, o Los Angeles Times, um dos jornais americanos com maior tradição de cobertura cultural, anunciou que encerraria o caderno Book Review — uma publicação semanal independente dedicada exclusivamente à crítica literária, que havia funcionado por décadas como uma das vozes mais influentes na formação do gosto literário americano. Em 2010, o Village Voice, o semanário alternativo de Nova York que havia formado gerações de críticos de música, artes visuais e cinema, demitiu quase todo o seu quadro de jornalistas e críticos culturais. Ao longo da mesma década, variações da mesma história se repetiram em dezenas de veículos de comunicação ao redor do mundo. O mercado havia decidido que opinião qualificada sobre cultura não pagava as contas.

A decisão foi, em termos puramente financeiros, compreensível. A internet havia destruído o modelo de classificados que sustentava a receita dos grandes jornais, e a publicidade programática digital, dominada por Google e Facebook, pagava frações do que a publicidade impressa havia pago. Em algum lugar nessa crise, a crítica cultural foi identificada como o custo que menos resistência enfrentaria ao ser cortado. Não vendia em banca. Não gerava cliques com a mesma eficiência que notícias de celebridade ou de política. Era cara de produzir — exigia especialistas que levavam décadas para desenvolver seu vocabulário — e cada vez mais difícil de justificar num balanço.

O vazio não ficou vazio por muito tempo. Preencheu-se com formas diversas e de valor irregular. Preencheu-se com o Rotten Tomatoes e o Metacritic — plataformas que agregam avaliações de múltiplos críticos e as comprimem num único número entre 0 e 100, que acaba funcionando como um julgamento de qualidade que nenhum crítico individual jamais deveria emitir com tanta segurança. Preencheu-se com resenhas de usuários no Goodreads e no Letterboxd — que têm o mérito genuíno de democratizar a opinião, mas que raramente oferecem o contexto histórico que transforma uma resenha em crítica. Preencheu-se com vídeos de YouTube de 40, 50, 60 minutos que analisam filmes com uma profundidade impressionante para amadores e uma inconsistência teórica que às vezes os torna menos úteis do que deveriam.

O problema não é que esses formatos existam — é que eles substituíram, em muitos contextos, o que existia antes sem que a substituição fosse examinada criticamente. A crítica cultural, no seu melhor, não era apenas avaliação de qualidade — era contextualização histórica, construção de relações entre obras e tradições, identificação de padrões que o consumo individual e imediato de uma obra raramente permite perceber. Era o trabalho de alguém que havia passado décadas desenvolvendo um quadro de referências suficientemente rico para poder dizer, com autoridade e com argumento: esta obra se relaciona com aquela, vem de uma tradição que você precisa conhecer para entender o que está acontecendo aqui, e sua aparente novidade é, na verdade, uma revisão de algo muito mais antigo.

Esse tipo de trabalho não é replicável por um algoritmo, não é escalável para uma plataforma de reviews, não é produzido por um influenciador que começa a fazer vídeos culturais depois de construir audiência fazendo conteúdo de outro tipo. É produto de décadas de leitura, de escuta, de visitas a museus e a shows e a estreias. É um bem público que leva muito tempo para ser formado e muito pouco tempo para ser destruído quando o mercado decide que não é lucrativo o suficiente.

Quem está fazendo o trabalho mais interessante de reconstrução da crítica cultural no presente são, em grande parte, os próprios críticos que saíram das redações e levaram sua audiência para formatos independentes. A newsletter — que ressurgiu como formato relevante nos anos 2010, depois de décadas de desuso — está provando ser um veículo mais adequado para a crítica cultural do que o jornal diário sempre foi: permite o tempo necessário para análises longas, cria uma relação de confiança entre escritor e leitor que o jornal frequentemente não conseguia construir, e pode ser sustentada financeiramente por um modelo de assinatura direta.

No Brasil, o quadro tem especificidades próprias. A crítica cultural brasileira nunca teve o mesmo nível de institucionalização que a americana ou a europeia — o país nunca teve, por exemplo, uma publicação equivalente ao New York Review of Books, dedicada exclusivamente à crítica literária e de ideias de longo fôlego. O que havia era distribuído em cadernos culturais de grandes jornais e em revistas especializadas, e a maior parte disso foi eliminada na mesma onda de cortes que atingiu a imprensa global.

O que está emergindo no lugar é um conjunto de iniciativas independentes de qualidade desigual mas de presença crescente: a Revista Cinética para cinema, o Jacobin Brasil para análise política e cultural, uma série de newsletters e podcasts que cobrem literatura, música e artes visuais com seriedade e com perspectiva. O público existe — é menor do que o das redes sociais, mas é consistente e disposto a pagar por conteúdo que considera valioso.

O que falta é a percepção, por parte dos próprios criadores e do mercado que poderia financiá-los, de que a crítica cultural é um investimento no longo prazo da cultura — não um gasto que pode ser cortado sem consequências. As consequências do corte já estão visíveis: uma cultura de consumo cultural que circula mais rápido, mais amplamente e com menos capacidade de se entender a si mesma. Talvez a urgência disso seja visível. Talvez não. A história da crítica cultural é, em grande parte, a história de uma função que só é reconhecida quando já não existe.