Moda

Como a Supreme inventou o hype drop

Em abril de 1994, numa esquina da Lafayette Street em Manhattan, abriu uma loja de skate que não era apenas uma loja de skate. O espaço era pequeno — pouco mais de 60 metros quadrados — e foi projetado por James Jebbia, seu fundador, com uma atenção ao detalhe que era incomum para o tipo de negócio que pretendia ser. Os produtos estavam expostos nas bordas do espaço, com o centro da loja deixado livre — um convite implícito para que os skatistas usassem o próprio espaço como ponto de encontro e não apenas de consumo. A loja se chamava Supreme, e a escolha desse nome — que em inglês significa supremo, máximo, absoluto — era uma declaração de ambição que, na época, parecia grandiosa para uma skateshop no SoHo.

Jebbia havia trabalhado antes com a Union e com a Stüssy — duas marcas que haviam entendido, antes de quase todo mundo, que a cultura de rua americana tinha estética própria e que essa estética podia ser transformada em produto. Mas o que Jebbia criou na Supreme foi um passo além: não apenas capturou uma estética, mas desenvolveu um modelo de negócio que transformou a própria inacessibilidade em produto. A escassez não foi uma limitação operacional da Supreme — foi uma estratégia deliberada que redefiniu a relação entre desejo e consumo na cultura urbana contemporânea.

O mecanismo era aparentemente simples: a Supreme lançava novos produtos toda quinta-feira em quantidades deliberadamente menores do que a demanda existente. Nenhuma reposição. Nenhuma versão online com estoque ilimitado. Se você queria a peça, precisava estar na loja na quinta-feira cedo o suficiente para estar na fila quando ela abrisse. A fila — que com o passar dos anos foi se tornando mais longa, começando às vezes na noite anterior, às vezes dois ou três dias antes para os lançamentos mais aguardados — se tornou o fenômeno em si.

A fila não era sofrimento — era performance de pertencimento. Estar na fila da Supreme era demonstrar que você sabia o que estava acontecendo, que você fazia parte de uma comunidade específica que valorizava exatamente esse tipo de acesso restrito. Era uma prática que tinha mais a ver com a subcultura do skate e do hip-hop — onde o conhecimento de referências obscuras era moeda social — do que com o consumismo convencional. O objeto comprado era importante, mas o processo de adquiri-lo era igualmente constitutivo da identidade que o objeto depois expressava.

A Supreme entendeu algo sobre a geração que cresceu com a internet que a maioria das marcas levaria décadas para compreender: que a abundância digital havia tornado a escassez física enormemente valiosa. Numa época em que qualquer produto de qualquer marca podia ser comprado online em dois cliques e entregue no dia seguinte, a experiência de não conseguir comprar — de ter que se esforçar, de ter que estar no lugar certo na hora certa, de às vezes perder — criava um valor que o dinheiro sozinho não podia comprar. Porque a maioria das pessoas que queria os produtos da Supreme tinha o dinheiro para comprá-los. O que não tinha era o acesso. E o acesso era exatamente o que a Supreme vendia.

A dimensão artística e cultural da Supreme foi construída com o mesmo cuidado com que foi construída a dimensão comercial — e é impossível entender uma sem a outra. As colaborações com artistas como Kaws, Jeff Koons e Takashi Murakami, com marcas de luxo como Louis Vuitton e Comme des Garçons, com fabricantes de objetos cotidianos como Hanes e Timberland e até com a bandeira americana em releituras deliberadamente provocativas: cada colaboração era um evento cultural que gerava cobertura espontânea em veículos de moda, de arte e de cultura pop.

A fórmula foi copiada com uma velocidade e uma amplitude que demonstram o quanto havia de replicável nela. A Nike com seus Air Jordan drops — que existiam antes da Supreme mas foram intensificados na era do hype drop — criou um mercado secundário de tênis que hoje movimenta bilhões de dólares anuais. A Adidas com o Yeezy de Kanye West. As marcas de luxo francesas e italianas que, uma após a outra, adotaram a lógica de lançamentos limitados para criar a escassez artificial que o modelo Supreme havia demonstrado ser tão eficiente em gerar desejo. O hype drop deixou de ser estratégia de uma loja de skate e tornou-se a gramática básica do desejo de consumo de moda e de objetos de design no século XXI.

O que aconteceu com a Supreme depois que a Carlyle Group — um dos maiores fundos de private equity do mundo — comprou uma participação em 2017 e a VF Corporation adquiriu a empresa inteira em 2020 por 2,1 bilhões de dólares é a versão mais recente de um roteiro que a cultura urbana conhece bem. A empresa foi comprada. A fórmula foi preservada com meticuloso cuidado — os drops continuam acontecendo, as filas continuam se formando, as colaborações continuam sendo lançadas. O que mudou é mais difícil de nomear mas não menos real: uma empresa que havia sido construída pela e para uma subcultura específica passou a ser propriedade de um conglomerado cuja expertise é extrair valor de marcas de consumo.

A fila na Lafayette Street continua. Os drops continuam acontecendo toda quinta-feira. As peças continuam esgotando em minutos. Mas o que estava sendo vendido em 1994 — a sensação de pertencer a algo que existia fora dos circuitos do consumo mainstream, de conhecer algo que os outros não conheciam, de ser parte de uma comunidade antes de ser cliente de uma marca — já não é o mesmo que o que está sendo vendido hoje. O que está sendo vendido hoje é a memória dessa sensação, transformada em produto. E a memória de uma sensação, por mais bem executada que seja a transformação, não é a mesma coisa que a sensação.