Existe uma versão romantizada dos anos 90 da NBA que circula hoje nas redes sociais em forma de compilações do YouTube com trilha sonora de boom bap e filtro VHS: Jordan voando, Pippen defendendo, Rodman caindo no chão com aquele sorriso de louco. É uma versão verdadeira — e é, ao mesmo tempo, uma versão que limpa o sangue do chão. Porque a NBA dos anos 90 foi também uma liga onde jogadores quebravam o nariz uns dos outros intencionalmente como estratégia defensiva, onde o trash talk era uma arma tão calculada quanto o arremesso, onde comissários e treinadores travavam batalhas abertas sobre o que o basquete deveria ser e a quem deveria pertencer. Era um esporte que ainda estava negociando os termos da sua própria identidade — e a negociação era, frequentemente, violenta.
Para entender a violência dos anos 90, é preciso entender os Detroit Pistons dos anos anteriores — o time que definiu os termos do debate. Os Bad Boys, como eram chamados os Pistons de Isaiah Thomas, Bill Laimbeer, Dennis Rodman e Rick Mahorn, desenvolveram na segunda metade dos anos 1980 um sistema defensivo que ficou conhecido como 'Jordan Rules': um conjunto de princípios específicos para conter Michael Jordan que incluía bater nele toda vez que ele penetrava na área, usar o corpo de formas que as regras da época permitiam mas que o espírito do jogo não havia antecipado. O objetivo declarado era fazer Jordan sentir que cada ponto dentro da área teria um custo físico real. E funcionou — os Pistons bateram os Bulls três anos seguidos antes de Jordan finalmente superar esse time em 1991.
O que os Pistons criaram não foi apenas uma estratégia para um adversário específico — foi um modelo que redefiniu o que era permitido dentro das quatro linhas. A liga dos anos 90 jogou com esse modelo como referência: se você podia bater em Jordan e a arbitragem permitia, o nível de contato físico aceito era dramaticamente mais alto do que qualquer versão anterior do esporte. Assistir a um jogo dos anos 90 hoje, depois de décadas acostumados com as regras de proteção ao ataque que a NBA implementou progressivamente nos anos 2000, é quase desconcertante: falta de que hoje seria falta técnica, carregamento de ombro que hoje seria expulsão, intimidação física explícita que hoje geraria suspensão — tudo era basquete normal.
Michael Jordan foi, nesse contexto, uma figura paradoxal. Ele era o produto que a NBA vendia para o mundo — a face do esporte, o herói da narrativa que David Stern estava construindo para transformar a liga numa propriedade de entretenimento global. E era, ao mesmo tempo, um dos praticantes mais brutais do trash talk que a liga já viu. Os relatos de ex-companheiros e adversários sobre Jordan dentro de quadra pintam um retrato que as transmissões televisivas raramente capturavam: um homem que usava a humilhação verbal com a mesma precisão que usava o pull-up jumper, que encontrava a fraqueza psicológica de cada adversário e a explorava sistematicamente, que transformava cada interação dentro de quadra numa demonstração de dominância que ia muito além dos pontos no placar.
O trash talk não era invenção de Jordan — era uma tradição com raízes no basquete de rua americano, onde a boca era tão parte do jogo quanto as mãos. Mas Jordan institucionalizou o trash talk no esporte profissional de uma forma que legitimou a prática para toda uma geração. Gary Payton — o Glove, que jogou pelo Seattle SuperSonics e depois pelo Milwaukee Bucks — era talvez o mais elaborado praticante do trash talk da era: capaz de conversar com o adversário durante toda a duração do jogo, construindo uma narrativa de humilhação progressiva que desconcentrava tanto quanto qualquer bloqueio físico. Reggie Miller, de Indiana, era outro especialista: sabia exatamente o que dizer para fazer o adversário perder o controle emocional no momento decisivo.
Dennis Rodman merece um capítulo próprio nessa história, porque Rodman representa a versão mais extrema e mais fascinante do que os anos 90 da NBA produziram como tipo humano. Rodman não apenas aceitou o papel de agente do caos — o construiu com uma consciência de personagem que ia muito além do esporte. As mechas coloridas, os piercings, os vestidos nas aparições públicas, o casamento solo em Las Vegas, o livro autobiográfico com título que não se podia pronunciar no ar — tudo era parte de uma performance de transgressão que Rodman havia entendido intuitivamente como proteção e como poder. Dentro de quadra, era o melhor reboteiro da geração, com uma inteligência de posicionamento que compensava completamente a ausência de arremesso. Fora, era um problema que nenhum manual de relações públicas conseguia conter, e que a NBA tolerava porque vencia campeonatos.