Todo domingo de manhã, em algum campo de terra de alguma periferia de alguma cidade brasileira, uma coisa acontece que não está em nenhum contrato, não gera nenhuma receita publicitária e não aparece em nenhum relatório de impacto econômico: o futebol de várzea acontece. Com chuteiras rasgadas e sem, com camisa numerada e sem, com árbitro e sem, com trave de cano e trave de tijolo e sem trave nenhuma, com goleiro de 60 anos e centroavante de 14 — o jogo acontece. Há décadas. Há gerações. Com uma teimosia que desafia qualquer lógica de mercado e que diz algo sobre o futebol, sobre o Brasil e sobre o que as pessoas precisam de um jogo que nenhuma plataforma de streaming e nenhum departamento de marketing ainda soube explicar satisfatoriamente.
A palavra 'várzea' é geograficamente específica: refere-se originalmente às áreas planas próximas a rios, que em São Paulo eram usadas como campos de futebol pelos operários imigrantes do início do século XX. Os italianos do Brás, os espanhóis da Mooca, os portugueses do Belenzinho: cada comunidade tinha seu campo, seu time, sua rede de rivalidades que era também uma rede de sociabilidade. O futebol chegou ao Brasil com a elite inglesa e paulistana no final do século XIX, mas foi a várzea que o democratizou — que transformou um esporte de clubes fechados e camisas importadas num jogo que cabia em qualquer terreno plano com dois pares de pedras no lugar de traves.
O pesquisador José Sérgio Leite Lopes mapeou esse processo em trabalhos que revelam como o futebol de várzea foi, na primeira metade do século XX, o principal mecanismo de integração de trabalhadores imigrantes e migrantes internos na cidade de São Paulo. O time do bairro era o espaço onde o operário italiano encontrava o operário nordestino, onde identidades nacionais e regionais se dissolviam — parcialmente, temporariamente, mas genuinamente — numa identidade local compartilhada. O campo de várzea era uma instituição social antes de ser um espaço esportivo.
Essa função social não desapareceu. Transformou-se. O futebol de várzea contemporâneo opera em redes de pertencimento que são, em muitos aspectos, mais complexas e mais densas do que as das décadas anteriores. As ligas amadoras que organizam campeonatos em bairros periféricos de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras cidades têm estruturas administrativas próprias, sistemas de pontuação, cerimoniais de premiação. Os times têm uniformes, têm patrocinadores locais — o bar da esquina, a loja de material de construção, o salão de beleza —, têm redes sociais onde postam os resultados e as fotos dos jogos. É uma indústria informal de pertencimento com uma eficiência que os departamentos de responsabilidade social das grandes corporações pagariam fortunas para replicar.
O que o futebol de várzea guarda que o futebol profissional perdeu é mais fácil de sentir do que de articular, mas vale a tentativa. É a relação entre o jogo e quem joga. No futebol profissional contemporâneo — onde contratos chegam a centenas de milhões de euros, onde clubes são propriedades de fundos de investimento do Oriente Médio ou de bilionários americanos, onde os jogadores são gerenciados como ativos e as torcidas são tratadas como consumidores — a distância entre o espetáculo e quem assiste ao espetáculo tornou-se astronômica. O torcedor não conhece o jogador. O jogador não mora no bairro. O clube não pertence à comunidade. É um produto de entretenimento que usa a linguagem do pertencimento sem ter, de fato, muito a ver com pertencer.