Música

Shibuya-Kei — O eclético movimento musical japonês dos anos 90

Existe um bairro em Tóquio que, durante uma janela específica de tempo — grosso modo de 1989 a 1998 — funcionou como o centro nervoso de um dos movimentos musicais mais estranhos, sofisticados e influentes do século 20. Esse bairro era Shibuya. E o movimento era chamado exatamente assim: Shibuya-kei. "Estilo de Shibuya."

O nome é enganosamente simples para algo que era fundamentalmente inclassificável.

Shibuya-kei não era um gênero no sentido convencional — não tinha um som único, uma estética sonora reconhecível, um BPM ou uma progressão de acordes que definisse o pertencimento. O que unia as bandas e artistas do movimento era outra coisa: uma abordagem. Uma filosofia de produção baseada em citação, pastiche e corte-e-colagem de referências ocidentais dos anos 60 — pop francês yé-yé, bossa nova brasileira, lounge music americana, indie britânico, trilhas de filmes europeus, easy listening, Motown — remontadas em Tóquio por jovens japoneses afluentes que passavam os dias escavando as lojas de discos do bairro em busca de importações raras.

Era, de certa forma, o oposto de quase tudo que o pop ocidental estava fazendo na mesma época. Enquanto o grunge americano pregava autenticidade crua e o Britpop britânico cultivava referências nacionais, o Shibuya-kei era deliberadamente artificial, irônico, cosmopolita e construído sobre uma reverência sofisticada pelo passado alheio.

O Shibuya-kei tem dois pais fundadores, e eles chegaram quase ao mesmo tempo: Pizzicato Five e Flipper's Guitar.

O Pizzicato Five foi formado em 1984 pelo produtor Yasuharu Konishi. Nos primeiros anos, misturava jazz e lounge com uma estética visual inspirada na moda dos anos 60. A virada aconteceu quando a cantora Maki Nomiya entrou para o grupo em 1990, trazendo uma identidade visual tão marcante quanto a sonora — perucas em cada show, teatralidade constante, a imagem de uma mulher de 1965 vivendo em 1991.

O Flipper's Guitar era composto por Kenji Ozawa e Keigo Oyamada, e começou com um nome diferente — Lollipop Sonic — antes de ser rebatizado. Estreou em 1989 com um álbum de indie pop britânico e jangle pop, e evoluiu rapidamente para algo mais complexo: sampling, elementos de dança, referências ao Madchester. A dupla era, segundo críticos da época, "os primeiros a perfeitar" o corte-e-colagem que definiria o gênero.

O Flipper's Guitar se desfez em outubro de 1991. Paradoxalmente, sua influência cresceu após a dissolução. As lojas HMV e Wave de Tóquio continuavam a incluir lançamentos contemporâneos em seções chamadas "Recomendações de Shibuya", e o termo "Shibuya-kei" apareceu pela primeira vez em materiais promocionais dessas lojas em 1993 — o nome nasceu nos corredores de uma loja de discos, não numa entrevista de banda.

Após o Flipper's Guitar, Keigo Oyamada assumiu o nome artístico Cornelius e fundou seu próprio label, o Trattoria, que funcionou como plataforma para toda uma geração de artistas do movimento: Kahimi Karie, Buffalo Daughter, Bridge. Em 1997 lançou o álbum Fantasma — frequentemente citado como o pico do Shibuya-kei — um caleidoscópio de gêneros onde cada faixa parecia habitar um universo diferente, mas todas soavam como partes de um sistema coerente.

O Pizzicato Five, enquanto isso, acumulava álbuns a uma velocidade notável. Bossa Nova 2001 (1993), produzido por Cornelius, foi talvez o álbum mais internacionalmente reconhecível do gênero. Happy End of the World (1997) foi o testamento — drum and bass, breakbeat, downtempo, lounge e pop de câmara num único disco que soava como o inventário de tudo que a música pop dos anos 90 tinha disponível.

O movimento tinha também uma dimensão visual específica. O designer Takaaki Shindo, associado ao Pizzicato Five e ao Flipper's Guitar, desenvolveu uma estética gráfica que usava tipografia europeia modernista, fotografia reduzida a elementos isolados e uma paleta que mesclava modernismo dos anos 60 com ironia pós-moderna. As capas de disco do Shibuya-kei eram design gráfico de verdade.

Existe uma ironia central no Shibuya-kei que vale ser dita: era um movimento underground baseado em consumo frívolo. Nasceu na bolha econômica japonesa dos anos 80, quando uma geração de jovens abastados de Tóquio tinha dinheiro e tempo para cultivar coleções de discos de importação. Quando a bolha explodiu no início dos anos 90 e a economia japonesa entrou em recessão, o movimento persistiu — mas carregando uma contradição: suas referências eram de um mundo de prazer e refinamento que estava desaparecendo.

O músico britânico Momus, que colaborou com vários artistas do movimento, declarou o Shibuya-kei "morto" em 1998, após o lançamento do Fantasma de Cornelius. O Pizzicato Five se dissolveu em 2001. O momento havia passado.

Mas o legado demorou mais para se dissipar. A abordagem de corte-e-colagem do Shibuya-kei antecipou o que o vaporwave faria duas décadas depois com a nostalgia estética. O produtor Yasutaka Nakata, responsável pelas primeiras fases do Capsule e pela fase inicial do Perfume, é diretamente tributário do movimento. E artistas como Mac DeMarco citam publicamente Haruomi Hosono — o produtor que antecedeu e influenciou o Shibuya-kei — como referência central.

Quando você ouve algo que soa como nostalgia sem origem específica, que mistura referências de décadas diferentes como se fossem contemporâneas, que prefere a citação à autenticidade — há uma boa chance de que a linha de influência passe por aquele bairro de Tóquio nos anos 90.