Moda

A importância do All Star na época de escola — e o que esse tênis diz sobre identidade, pertencimento e cultura

Existe uma memória específica que atravessa gerações de brasileiros que cresceram entre os anos 80 e 2000: o primeiro par de All Star. Não era só um tênis. Era uma passagem. Tinha um significado que nem sempre se conseguia articular na época, mas que era completamente claro na prática: quem usava All Star sabia de alguma coisa.

O Converse Chuck Taylor All Star é tecnicamente um tênis de basquete de 1917. Marquis Mills Converse fundou a empresa em 1908 em Massachusetts e em 1917 lançou o modelo que ainda hoje — com design praticamente inalterado — é um dos tênis mais vendidos do planeta. Em 1923, um jogador de basquete semi-profissional chamado Chuck Taylor procurou a empresa para sugerir melhorias. Suas ideias foram implementadas, e seu nome foi adicionado ao patch do tornozelo — tornando-o o primeiro tênis da história com endosso de celebridade.

Por décadas, o All Star dominou o basquete americano. Na década de 30 já era o calçado preferido dos jogadores na América do Norte. Nas Olimpíadas de 1936 a 1968, foi o tênis oficial dos atletas americanos. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi o tênis de treinamento oficial das Forças Armadas dos EUA.

Então, nos anos 70, a Nike chegou com seus tênis de couro e amortecimento para jogadores como Michael Jordan, e o All Star perdeu as quadras de basquete. A Converse declarou falência em 2001. A Nike comprou a marca em 2003.

 

Na década de 60, enquanto o All Star dominava as quadras, começou a aparecer nas ruas. Jovens do movimento pelos direitos civis usavam-no como calçado cotidiano. Elvis Presley e James Dean o adotaram. Na década de 70, o punk o transformou em uniforme — as jaquetas de couro, o jeans rasgado e o Converse formaram uma estética que dizia, sem palavras, que você não se alinhava com o status quo. O tênis ajudava porque era barato: acessível para jovens que não tinham dinheiro para marcas caras, mas que tinham atitude suficiente para definir o que era cool.

 

Nos anos 80 e 90, o All Star atravessou o Atlântico e chegou ao imaginário cultural de um jeito específico. Kurt Cobain o usava em palcos e videoclipes. The Ramones, Sex Pistols, The Clash — o tênis estava em todos os pés da resistência sonora da época. Wiz Khalifa, Wale, Lil Wayne o trouxeram para o hip-hop. No Brasil, o All Star encontrou um terreno fértil numa geração que estava construindo uma identidade cultural urbana sem muito dinheiro mas com muito estilo.

 

Nos anos 90 e 2000, o All Star no Brasil não era o tênis mais caro do pátio — esse era o Nike ou o Adidas. Mas era talvez o mais carregado de significado. Usá-lo comunicava uma posição: você era alguém que se interessava por algo além do mainstream. Que ouvía rock, ou hip-hop, ou que tinha uma curiosidade estética que os seus colegas não conseguiam nomear mas reconheciam.

O All Star era democraticamente acessível — o que significava que era o tênis de quem sabia o que queria sem precisar pagar para sinalizar isso. Essa acessibilidade era parte do apelo. Não era o tênis dos meninos ricos que usavam a novidade de uma coleção de basquete. Era o tênis de quem sabia de arte, de música alternativa, de história do rock, de contracultura — e não precisava gastar mais para provar.

Com o tempo, e especialmente a partir dos anos 2010 com a democratização das redes sociais e o boom do streetwear, o All Star foi ressignificado mais uma vez. Passou a aparecer em passarelas, em colaborações com estilistas, em versões plataforma e edições limitadas.

 

Mas quem usava All Star na escola dos anos 90 sabe de uma coisa que nenhuma colaboração de moda consegue recriar: o sentimento de que aquele tênis era seu antes de ele ser de todo mundo. E essa sensação, de estar um passo à frente sem precisar correr, é o que definia uma geração inteira de jovens que construíram sua identidade na fronteira entre o acessível e o significativo.