Quando D'Angelo lançou Brown Sugar em 1995, aos 21 anos, tocando praticamente todos os instrumentos e assumindo grande parte da produção sozinho, a comparação era inevitável — e o próprio artista nunca escondeu de onde vinha aquela referência. Prince era o modelo declarado: o artista multifacetado, capaz de ser banda inteira dentro de um único corpo, que tratava o estúdio como instrumento tão importante quanto qualquer teclado ou guitarra. Nascido Michael Eugene Archer em Richmond, Virgínia, D'Angelo cresceu numa família de credo pentecostal, onde aprendeu guitarra, teclado, bateria e sopro — o mesmo tipo de formação multi-instrumentista que Prince também construiu dentro de igreja, décadas antes, em Minneapolis.
Essa influência não ficou só no nível técnico. Está na forma como D'Angelo tratou o falsete como ferramenta emocional, não decorativa — a mesma lógica que Prince usava para transitar entre vulnerabilidade e provocação sexual dentro da mesma frase melódica. Está na fusão de gospel, funk e sensualidade sem contradição aparente entre os dois registros, uma equação que Prince passou a carreira inteira resolvendo e que D'Angelo herdou como ponto de partida, não como cópia. O clipe de "Untitled (How Does It Feel)", com o corpo do cantor como centro absoluto da narrativa visual, dialoga diretamente com a forma como Prince sempre usou o próprio corpo como texto — objeto de desejo e de autoria ao mesmo tempo, sem separar as duas coisas.
Antes de arriscar a composição em nome próprio, D'Angelo já vinha de outro tipo de sucesso: aos 19 anos, assinou com a EMI e escreveu "U Will Know", hit tornado famoso pelo supergrupo Black Men United. Foi só depois, seguindo o modelo de artista-autor que Prince representava, que ele decidiu assumir sozinho o peso completo de compor, tocar e produzir — decisão de carreira que o tornaria referência para uma geração inteira de músicos, mas que também exigiu dele um tipo de controle criativo raramente concedido a um artista de 21 anos recém-chegado.
Voodoo (2000), gravado no lendário estúdio Electric Lady com colaboradores como Questlove, J Dilla, Q-Tip, Redman, Method Man e Roy Hargrove, é o momento em que essa herança se torna linguagem própria — mas o eco de Prince continua ali, na forma como D'Angelo trata cada disco como obra fechada, cada silêncio entre lançamentos como parte do mistério em torno do artista, não como falha de agenda. Depois de Brown Sugar, ele levaria cinco anos para lançar o disco seguinte, alegando bloqueios criativos — um padrão de silêncio prolongado entre obras que também define boa parte da mitologia construída em torno de Prince ao longo da carreira.
A Rolling Stone já havia escrito sobre ele que "poucos cantores modernos exibem tão livremente suas raízes religiosas", numa frase que também descreveria Prince com pouquíssimo ajuste. Os dois artistas, cada um à sua maneira, trataram a música negra contemporânea como território onde o sagrado e o profano não precisam se excluir — e ambos deixaram esse território mais rico do que encontraram. A diferença é que Prince morreu em 2016, e D'Angelo, o discípulo mais evidente daquele modelo de artista total, sobreviveu a ele por apenas nove anos.