Existe uma forma de contar a história da música popular do século 20 sem citar um único cantor — basta seguir a discografia de um homem só. Quincy Jones começou a tocar trompete aos 14 anos, numa banda de bairro em Seattle ao lado de um garoto dois anos mais velho chamado Ray Charles. Aos 23, já era diretor musical da orquestra de Dizzy Gillespie. Décadas depois, tinha acompanhado Elvis Presley em suas primeiras aparições de TV, feito arranjo para Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, dividido palco com Charlie Parker e Miles Davis, e se tornado, em 1961, o primeiro diretor musical negro de uma grande gravadora americana, a Mercury Records. Ele ainda nem tinha chegado à parte mais famosa da própria história.
Em 1958, Quincy começou a trabalhar com Frank Sinatra, relação que duraria até o último disco do cantor e que produziria um dos arranjos mais conhecidos da música americana: a versão de "Fly Me to the Moon" que Buzz Aldrin levaria, em fita cassete, para o primeiro pouso na Lua, em 1969. Mas foi o encontro com um ex-astro mirim que mudaria a história do pop para sempre. Quincy conheceu Michael Jackson, então com 19 anos, durante as filmagens de The Wiz, e produziu os três discos que definiriam a segunda metade da carreira dele: Off the Wall (1979), que vendeu 20 milhões de cópias e já provava que Jackson podia existir fora da sombra dos irmãos, Thriller (1982), o álbum mais vendido da história, e Bad (1987). Não é força de expressão dizer que, sem Quincy Jones no comando da produção e dos arranjos, o Michael Jackson que o mundo conhece simplesmente não existiria — ele foi essencial para libertar Jackson da imagem de ex-criança-estrela e construir, faixa a faixa, o artista adulto que dominaria a década seguinte.
Em 1985, Quincy reuniu 46 dos artistas mais populares dos Estados Unidos — Michael Jackson, Bruce Springsteen, Tina Turner, Cyndi Lauper, Stevie Wonder, Diana Ross, entre outros — para gravar "We Are the World", arrecadação para a fome na Etiópia que se tornaria a resposta americana ao "Do They Know It's Christmas" britânico. Coordenar quase cinquenta egos musicais de altíssimo calibre numa sala só, dentro do prazo e sem embate público, é o tipo de proeza que raramente aparece em retrospectiva de carreira, mas que resume exatamente o que fez de Quincy Jones um nome irreplaçável: a capacidade de gerenciar talento em escala industrial sem sufocar a genialidade individual de cada artista envolvido.
A lista de colaboradores de Quincy Jones preencheria, sozinha, um hall da fama da música americana: Count Basie, Ray Charles, Aretha Franklin, Donna Summer, Tony Bennett, Louis Armstrong, Will Smith. Ele compôs trilhas para mais de 50 filmes e programas de TV, incluindo Roots e In the Heat of the Night, foi indicado três vezes ao Oscar por A Cor Púrpura e acumulou, ao longo de mais de 65 anos de carreira, 28 prêmios Grammy. Sua autobiografia de 2001, Q, precisou de 18 páginas só para listar prêmios e reconhecimentos.
Quincy Jones morreu em novembro de 2024, aos 91 anos, em casa, cercado pela família. O que fica além dos números é a lição estrutural por trás da carreira: nenhum dos artistas que ele produziu teria soado exatamente daquele jeito sem ele — e, ao mesmo tempo, ele nunca tentou ser maior que a voz que estava produzindo. É uma forma de autoria que a indústria raramente sabe nomear, porque não cabe em capa de disco nem em holofote de palco. Cabe em crédito de produção — o mesmo lugar, aliás, onde o Brasil escondeu Paulinho da Costa.