Esporte, Moda

Do campo de Golfe ao guarda-roupa de grife: a jaqueta Harrington

A peça nasceu das mãos dos irmãos John e Isaac Miller, donos de uma fabricante de capas de chuva chamada Baracuta, e membros do Manchester Golf Club. O problema que eles resolveram era estritamente prático: a capa de chuva comprida que vendiam atrapalhava o movimento do taco no swing. A solução foi uma jaqueta curta, gola alta, punho de tricô, bolsos diagonais — batizada G9 dentro do sistema alfanumérico da marca, onde o "G" vinha simplesmente de golfe. Um ano depois, a Baracuta ganhou permissão para usar o tartã da família Fraser no forro — o xadrez vermelho e verde que hoje é uma das marcas registradas mais reconhecíveis da moda masculina nasceu de uma licença têxtil escocesa, não de nenhuma prisão.

O nome "Harrington" só surgiu décadas depois, e por acaso total: nos anos 1960, o ator Ryan O'Neal vestiu a G9 interpretando o personagem Rodney Harrington na novela americana
Peyton Place. O nome colou tão forte que o varejista londrino John Simons, especialista em trazer o visual Ivy League pra Inglaterra, passou a vender a peça sob esse apelido — e o mercado inteiro seguiu.

 

A trajetória da Harrington por Hollywood é uma lista de nomes que definiram elegância rebelde: James Dean em Juventude Transviada, Elvis Presley durante as filmagens de King Creole, Steve McQueen na capa da revista Life e em O Caso Thomas Crown. Cada aparição reforçava a mesma mensagem: elegante o suficiente pra qualquer ambiente, com uma pitada de insubordinação embutida no corte.

Foi na Inglaterra, porém, que a jaqueta ganhou seu significado mais duradouro — e mais contraditório. Os
mods dos anos 1960 adotaram a Harrington como parte do uniforme, motoneta e terno estreito incluídos. Quando a cena mod se fragmentou, os skinheads herdaram a peça; depois vieram os punks, reinventando o mesmo corte outra vez. Três subculturas historicamente rivais, cada uma vestindo exatamente a mesma jaqueta com intenção completamente diferente — prova de que a Harrington nunca pertenceu a nenhuma tribo específica, só à própria ideia de pertencimento.

 

O detalhe mais irônico de toda essa trajetória é que a Harrington só virou ícone de rebeldia depois de décadas como peça de elite esportiva branca — golfe britânico nos anos 30, moda americana endinheirada nos anos 50. A rua não roubou a jaqueta de ninguém; pegou uma peça de clube fechado e a reprogramou, camada sobre camada, até que a origem golfista virasse rodapé irrelevante diante do significado que a rua construiu por cima. Hoje a Baracuta segue vendendo edições comemorativas — inclusive uma leva numerada de 137 peças para os 70 anos da G9 — pra um público que, em sua maioria, nunca soube que estava comprando um artefato de clube de golfe inglês.