Cultura, Música

Sylvia Robinson, a mãe do primeiro disco de rap

Numa noite de 1979, dentro de um clube em Harlem, uma mulher de 44 anos que já tinha carreira inteira feita como cantora assistia a algo que nunca tinha visto num palco antes: um MC chamado Lovebug Starski improvisando rima em cima do groove de "Good Times", do Chic, enquanto a plateia inteira reagia como se aquilo fosse óbvio, natural, dado — algo que já rolava nas festas de rua do Bronx havia anos, mas que nenhuma gravadora jamais tinha pensado em prensar em vinil. Sylvia Robinson viu ali não apenas uma cena de festa, mas uma saída: sua gravadora, a All Platinum Records, estava afundando em dívida, e aquele som era a primeira coisa nova que ela via em anos.

 

Sylvia não era estranha à indústria. Entrou aos 14 anos, contratada pela Columbia como "Little Sylvia" em 1950, e nos anos 50 formou o duo Mickey & Sylvia, colocando "Love Is Strange" no topo das paradas de R&B. Décadas depois, já como executiva e produtora ao lado do marido, viu a própria estrutura empresarial desmoronar — e foi exatamente nesse momento de risco financeiro real, não de conforto criativo, que ela tomou a decisão mais influente da carreira: montar um grupo do zero, batizado Sugarhill Gang, reunindo três rapazes de Nova Jersey que sequer se conheciam antes daquela gravação.

"Rapper's Delight" foi gravado numa única tomada, sobre o instrumental de "Good Times" — uso não autorizado que quase virou processo. Nile Rodgers e Bernard Edwards, autores da faixa original, ameaçaram ação judicial por violação de direitos autorais; o caso se resolveu com acordo que lhes deu crédito de composição, mas o disco já estava tocando em rádio quando o acerto saiu. Lançado em setembro de 1979 pela recém-fundada
Sugar Hill Records, o single chegou ao Top 40 americano, ao Top 3 britânico e ao topo das paradas canadenses — tornando-se, tecnicamente, não o primeiro disco de rap gravado (esse título pertence a "King Tim III", da Fatback Band, lançado semanas antes), mas o primeiro a realmente atravessar fronteira geográfica e cultural.

 

O que Sylvia fez depois é o que separa sorte de visão editorial real. Em 1982, ela convenceu Grandmaster Flash and the Furious Five a gravar "The Message" — uma faixa que trocava a festa despreocupada de "Rapper's Delight" por um retrato cru da vida no gueto novaiorquino, sem qualquer garantia de que o público quisesse isso. Foi aposta dela, contra a lógica comercial mais óbvia, e "The Message" hoje é considerada uma das faixas mais influentes da história do hip hop. A Sugar Hill Records também lançou "White Lines", de Melle Mel, com clipe dirigido por um então iniciante Spike Lee — outro nome que, décadas depois, se tornaria peso pesado cultural por conta própria.

 

Existe uma tensão real por trás do título "mãe do hip hop" que a imprensa deu a Sylvia depois de sua morte, em 2011, aos 75 anos. Os verdadeiros criadores do estilo de improviso do Bronx e do Harlem — os MCs que desenvolveram aquilo nas festas de rua, sem registro, sem contrato, sem nome em crédito — não tinham ligação nenhuma com o Sugarhill Gang, e muitos ficaram estarrecidos ao ver um grupo montado em estúdio levar o crédito comercial por um estilo que eles vinham cultivando havia anos. Sylvia não inventou o rap. Ela reconheceu, antes de qualquer outro executivo com acesso a estúdio e prensa de vinil, que aquele som tinha valor de mercado — e agiu rápido o suficiente pra ser a primeira a prensá-lo.