Antes de existir Universo Cinematográfico Marvel, antes de qualquer estúdio acreditar que filme de herói podia virar franquia bilionária, um caçador de vampiros mestiço interpretado por um ator negro provou, sozinho, que o gênero tinha futuro comercial. Sem ele, é bem possível que a Marvel dos cinemas nunca tivesse existido do jeito que existe hoje.
O personagem, criado nos quadrinhos nos anos 1970, é "daywalker" — meio humano, meio vampiro, imune às fraquezas clássicas da espécie que caça desde que sua mãe foi atacada durante a gravidez dele. É origem sombria, quase de terror puro, distante do tom leve que dominava a maioria das adaptações de herói da época.
O contexto importa: nos anos 90, adaptação de quadrinho era terreno de fracasso repetido. Batman & Robin (1997) tinha sido massacrado pela crítica. Estúdios enxergavam filme de herói como aposta cara e arriscada. Nesse cenário, colocar protagonista negro num papel de ação violenta, com classificação restritiva de conteúdo adulto, era ainda mais incomum — Hollywood raramente apostava em ator negro como protagonista de blockbuster de ação, e menos ainda num filme que misturava terror, luta e mitologia sobrenatural densa.
Blade desafiou essa lógica e funcionou, gerando duas sequências — Blade II (2002), dirigido por Guillermo del Toro, e Blade: Trinity (2004) — consolidando uma trilogia rara em lucratividade pros padrões da época, fora do universo Batman e Superman. É consenso entre historiadores de cinema de gênero que esse sucesso ajudou a convencer estúdios de que filme de herói podia dar dinheiro de forma consistente, construindo, mesmo que indiretamente, o terreno comercial que tornaria viável o modelo de universo compartilhado que a Marvel Studios lançaria oficialmente dez anos depois, com Homem de Ferro (2008).