Existe um Homem-Aranha que provavelmente nunca teria existido se um ator e músico não tivesse pedido, publicamente, uma chance de interpretar Peter Parker no cinema.
Em 2010, Donald Glover — então mais conhecido como ator de Community e ainda no início da carreira musical como Childish Gambino — usou o Twitter pra manifestar interesse em interpretar Peter Parker na refilmagem que viria a se tornar O Espetacular Homem-Aranha (2012). O pedido, alimentado por campanha de fã sob a hashtag #Donald4Spiderman, não resultou no papel — o estúdio seguiu com Andrew Garfield. Mas a repercussão chamou atenção de Brian Michael Bendis, roteirista veterano da Marvel que já discutia publicamente a falta de representatividade racial em personagem principal do universo. Bendis citou diretamente o momento Donald Glover como inspiração pra criar um novo Homem-Aranha que refletisse a diversidade que os fãs pediam, mas que a versão cinematográfica principal não entregaria.
O resultado foi Miles Morales, criado por Bendis ao lado da desenhista Sara Pichelli, apresentado em 2011 dentro da linha Ultimate Comics Spider-Man — universo paralelo da Marvel, criado justamente pra permitir esse tipo de reinvenção sem alterar décadas de história do Peter Parker clássico. Miles é filho de pai afro-americano e mãe porto-riquenha, criado no Brooklyn, e assume o manto depois da morte do Peter daquele universo específico — nunca pensado como substituto, mas como sucessor dentro de linha editorial paralela.
A recepção inicial foi mista, com parte do público reagindo mal à ideia de alteração racial num personagem tão estabelecido — reproduzindo quase à risca o mesmo debate que cercara a campanha de Glover anos antes. Mas Miles resistiu e se consolidou como um dos personagens mais queridos da Marvel, ganhando edição própria, presença em jogo e adaptação cinematográfica de peso.