Cultura

A história do Grime: gênero criado em quarto de Londres

Enquanto o hip hop americano se profissionalizava em estúdios cada vez mais caros, do outro lado do Atlântico um grupo de adolescentes de Londres inventava um gênero inteiro usando ferramenta de jogo de PlayStation e toque de celular Nokia.

O gênero surgiu no leste de Londres no início dos anos 2000, saindo da cena de rádio pirata que já cultivava UK garage, jungle e dancehall havia anos. Estações como
Rinse FM e coletivos como Pay As U Go Kartel e So Solid Crew foram o terreno onde uma versão mais escura do garage começou a circular. O detalhe técnico que definiu o som, porém, não veio de estúdio profissional: veio do FruityLoops, hoje FL Studio, software criado pela empresa Image-Line, que tinha raízes em desenvolvimento de jogos. Era barato, fácil de piratear e intuitivo o suficiente pra adolescente sem treinamento formal aprender sozinho, sem sintetizador ou sampler caro.

 

Um detalhe curioso e decisivo: o tempo padrão de fábrica do FruityLoops era 140 batidas por minuto. Foi esse ajuste banal — não escolha artística deliberada — que definiu o BPM característico do grime, hoje tratado como assinatura obrigatória do gênero. O próprio Wiley, "padrinho do grime", já afirmou que boa parte das primeiras faixas dele saiu nesse tempo simplesmente porque era o que o programa já vinha configurado — e outros produtores seguiram o padrão. Muitos futuros produtores tiveram primeiro contato com composição através de jogos como Music Creation for PlayStation, vendido como brinquedo criativo, não ferramenta profissional.

Do lado vocal, a formação dos MCs foi igualmente improvisada: a prática de "spitting" se desenvolvia nas ruas, nos pátios de escola, ao redor de celular tocando MP3 em qualidade péssima. Produtores como
Dexplicit, autor do instrumental de "Pow! (Forward)", do Lethal Bizzle — primeiro grande hit do grime nas paradas britânicas, em 2004 — contam que começaram compondo literalmente toques de Nokia 3310 pra colega de escola, antes de qualquer contato com software mais sério.

Artistas como
Dizzee Rascal — cujo álbum de estreia, Boy in da Corner (2003), venceu o Mercury Prize — e Kano, Skepta e JME transformaram essa limitação técnica em linguagem própria, reconhecível muito além da cena original de rádio pirata.