Cinema e TV

Ashita no Joe: o mangá que virou grito de rebelião

Existe um mangá de boxe que, num dia de 1970, foi gritado como palavra de ordem por sequestradores armados dentro de um avião comercial. Poucas obras de ficção já tiveram sua mensagem levada tão literalmente ao mundo real quanto Ashita no Joe (Tomorrow's Joe).

Criado pelo roteirista
Asao Takamori e pelo desenhista Tetsuya Chiba, publicado semanalmente na revista Weekly Shōnen Magazine entre janeiro de 1968 e maio de 1973, Ashita no Joe acompanha a trajetória de Joe Yabuki, um órfão vagando pelas ruas de Tóquio que descobre o boxe dentro de um reformatório juvenil, depois de se envolver numa briga com uma gangue local. Guiado por um treinador alcoólatra e decadente que enxerga nele algo especial, Joe sobe, soco a soco, através da cena amadora e depois profissional do boxe japonês — numa narrativa que combina drama social cru com a tensão pura do esporte de combate.

A obra vendeu mais de 20 milhões de cópias, foi adaptada em duas séries de anime, dois longas-metragens live-action (1970 e 2011) e é hoje tratada como parte fundamental da cultura pop japonesa. Joe Yabuki chegou a ser posicionado em sétimo lugar numa lista da Mania Entertainment sobre os heróis mais icônicos do anime, com o crítico Thomas Zoth descrevendo a obra como uma captura precisa do espírito do Japão dos anos 1960.

 

Em 31 de março de 1970, nove membros da Facção Exército Vermelho — um grupo radical de esquerda, cisão de um cisão dentro do movimento estudantil japonês conhecido como Zengakuren — embarcaram num voo da Japan Airlines que ia de Tóquio a Fukuoka, com mais de cem passageiros a bordo. Armado com uma katana, o integrante Takamaro Tamiya gritou "Somos o Joe!" antes de o grupo tomar controle da aeronave, dando início ao episódio conhecido como o sequestro do Yodogo. O plano original era seguir até Cuba, onde os sequestradores esperavam receber treinamento de forças comunistas — mas a tripulação rapidamente informou que a aeronave não tinha autonomia de voo suficiente pra isso. Depois de negociação prolongada, o grupo acabou desviado pra Coreia do Norte, onde a maioria permaneceria pelo resto da vida.

O gesto de gritar o nome de um personagem de mangá durante um sequestro político não era acaso nem delírio isolado: era leitura direta e consciente da obra como manifesto. A geração ligada aos movimentos estudantis via em Joe Yabuki um espelho quase perfeito da própria condição — alguém sem estrutura familiar, sem apoio institucional, sem vantagem nenhuma, que se recusa a aceitar o lugar que a sociedade reservou pra ele e insiste em lutar mesmo contra adversário claramente superior.

 

Existe uma ironia histórica importante nessa história, e ela raramente aparece nas versões mais simplificadas do episódio: o auge de popularidade de Ashita no Joe coincidiu, quase exatamente, com o próprio esgotamento do movimento estudantil que via nele um símbolo. Pesquisas da época sugerem que nunca mais do que 20% dos estudantes japoneses estiveram de fato ativamente envolvidos em lutas como aquela — ou seja, tratava-se sempre de uma minoria dedicada, não de uma onda de massa. A derrota simbólica do Zengakuren é geralmente datada do fim da ocupação da Universidade de Tóquio em 1969, mas o esgotamento real do movimento já vinha de mais longe. Um golpe final veio em 1970, com a renovação do Tratado de Segurança EUA-Japão, aprovada apesar de protestos nacionais massivos — e foi exatamente esse duplo fracasso, da ocupação universitária e do movimento antitratado, que empurrou a facção mais radical do movimento em direção a táticas cada vez mais extremas, culminando no sequestro do Yodogo.

Ou seja: o momento em que Joe Yabuki se tornou grito de guerra político foi também o momento em que a causa que ele simbolizava já estava, na prática, perdendo força nas ruas. O mangá sobreviveu ao movimento que o adotou como bandeira — e continua sendo lido, décadas depois, muito além de qualquer contexto político específico, como puro relato sobre persistência diante do impossível.

 

O mais impressionante na trajetória de Ashita no Joe é como a obra sobreviveu, praticamente intacta em popularidade, ao contexto político específico que a tornou símbolo em 1970. Décadas depois do sequestro do Yodogo, a maioria dos novos leitores e espectadores da obra não tem qualquer ligação com o movimento estudantil japonês ou com a Facção Exército Vermelho — conhecem Joe Yabuki puramente pelo drama esportivo e humano da história, sem precisar do contexto político pra se emocionar com a trajetória dele. Essa capacidade de se separar do momento histórico que a consagrou é rara: a maioria das obras politicamente carregadas de um período específico perde força quando esse período passa. Ashita no Joe não perdeu.

Prova disso é
Megalo Box, anime de 2018 que reimagina a mitologia de Joe Yabuki numa ambientação de ficção científica distópica, lançado como celebração dos 50 anos da obra original e recebido com aclamação por uma geração inteira de espectadores que sequer tinha nascido quando o mangá original foi publicado. A ressonância emocional da história — um desconhecido sem estrutura nenhuma, recusando-se a aceitar o próprio lugar — provou ser universal o suficiente pra atravessar meio século sem precisar de tradução geracional.