Em 29 de dezembro de 2001, às 23h51, Cássia Eller morreu de infarto do miocárdio numa clínica em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Tinha 39 anos. Naquele ano, havia feito mais de 90 shows. No Rock in Rio de 2001, sua versão de "Smells Like Teen Spirit" foi tão devastadora que Dave Grohl — o baterista original da música, então vocalista do Foo Fighters — disse que era a melhor versão que havia visto. E então foi até ela e a abraçou no palco.
Em maio daquele mesmo ano, numa entrevista, Cássia havia dito: "Sou mulher, sou pobre, sapatão, mãe solteira, preencho todas as lacunas. Tem de saber lidar com o preconceito."
Ela não estava reclamando. Estava descrevendo.
Cássia Rejane Eller nasceu no Rio de Janeiro em 10 de dezembro de 1962. Cresceu tensionada por extremos e, simultaneamente, exposta à diversidade cultural. Enquanto a música era uma atividade prestigiada na família da mãe, o pai era militar, o que fez com que, entre os seis e os 18 anos, ela perambulasse por Belo Horizonte, Santarém, Rio de Janeiro e Brasília. Desde os 14 anos, para onde fosse, Cássia levava seu violão debaixo do braço, quase sempre dedilhando algo dos Beatles.
Foi em Brasília que sua carreira começou — corista em ópera, cantora em bares, participante do primeiro trio elétrico da cidade, até ser descoberta num musical de Osvaldo Montenegro em 1981. Em 1989, seu tio Anderson — que se tornaria seu primeiro empresário — conseguiu que uma fita fosse ouvida pela Polygram. Em 1990, com contrato assinado, lançou seu primeiro disco.
A voz era inconfundível: roxa, rouca, com uma qualidade que os críticos chamavam de mezzosoprano mas que na prática soava como alguém que havia vivido mais do que a idade permitia. Ela não era compositora no sentido convencional — era intérprete, no sentido mais profundo que essa palavra pode ter. Quando Cássia cantava uma música, a música se tornava outra coisa. Ela a reescrevia de dentro pra fora, infundindo sua própria narrativa em qualquer letra que tocasse.
O Brasil dos anos 90 tinha muitas celebridades. Tinha cantoras pop, atrizes de novela, apresentadoras de televisão — e tinha uma representação muito específica do que uma mulher pública deveria ser: bonita no padrão europeu, discreta sobre vida pessoal, consensual, palatável.
Cássia Eller era o oposto de tudo isso. Negra, bissexual assumida, vivia com sua companheira Maria Eugênia Vieira Martins há mais de uma década, havia tido um filho com o baixista Tavinho Fialho que morreu num acidente dias antes do nascimento do bebê — e criava Chicão com Maria Eugênia numa estrutura familiar que o Brasil de 1991 não tinha categoria legal para nomear. Fumava em entrevistas. Tomava cerveja em shows. Aparecia de qualquer jeito porque era desse jeito.
Para jovens de periferia nos anos 90 — especialmente jovens negros, LGBTQ+, ou simplesmente diferentes do que a televisão mostrava como aceitável — Cássia Eller era talvez a única figura pública que reunia todas essas coisas simultaneamente e não pedia desculpa por nenhuma delas.
O rock brasileiro dos anos 90 era amplamente masculino, amplamente branco na sua representação midiática. Cássia habitava esse espaço de forma que não parecia invasão — parecia pertencimento. Ela não estava pedindo para ser aceita. Estava ocupando o espaço como se sempre fosse seu, porque sempre foi.