Em 1949, num pequeno espaço cedido pelos pais, um ex-soldado japonês de 31 anos começou a fabricar tênis de basquete com as próprias mãos. O Japão estava destruído. A guerra havia terminado quatro anos antes, com as bombas em Hiroshima e Nagasaki, com a rendição incondicional, com a ocupação americana. A infraestrutura do país estava em ruínas, a autoestima nacional estava em colapso, e jovens cresciam num país que não sabia mais o que era.
Kihachiro Onitsuka acreditava que o esporte era a resposta. Não como distração, mas como reconstrução. Uma mente sã num corpo são — em latim, Anima Sana in Corpore Sano — seria o princípio que guiaria não apenas seus primeiros tênis, mas a empresa que décadas depois levaria essas iniciais como nome: ASICS.
Seus primeiros protótipos de tênis de basquete eram ruins. Desintegravam. Mas Onitsuka não desistia. A virada veio num almoço ordinário: um pedaço de polvo preso com força ao fundo de um prato de salada. Ele pegou os hashis e não conseguiu soltá-lo facilmente. Esse momento — a observação do mecanismo de sucção dos tentáculos do polvo — gerou o solado do primeiro tênis de sucesso da marca. A sola com ventosas que melhorava a tração no piso de madeira das quadras de basquete.
Em 1951, dois anos após fundar a empresa, o atleta Shigeki Tanaka — um japonês de uma cidade próxima a Hiroshima que havia sobrevivido às consequências da bomba atômica aos 13 anos — correu a Maratona de Boston usando tênis Onitsuka. Venceu. Era a primeira aparição relevante de um atleta japonês num evento internacional desde a guerra, e ele cruzou a linha de chegada com o tigre nos pés.
Ao longo dos anos 50 e 60, a Onitsuka expandiu para além do basquete: corrida, wrestling, tênis, futebol. Em 1956, foi escolhida para fornecer os tênis da delegação japonesa para os Jogos Olímpicos de Melbourne — posição que manteria nas Olimpíadas até 1980. A famosa listras laterais — o que hoje chamamos de "Onitsuka Tiger stripe" — apareceu pela primeira vez em 1966, numa chuteira de treinamento criada para os Jogos de 1968 no México. O modelo que se tornaria o ícone eterno da marca, o Mexico 66, leva esse evento no nome.
Em 1963, um jovem estudante de MBA da Universidade de Stanford chamado Phil Knight visitou a fábrica em Kobe como parte de um projeto de pesquisa sobre marketing de calçados esportivos japoneses. Knight ficou impressionado e fundou a Blue Ribbon Sports (BRS), que se tornou o distribuidor americano exclusivo da Onitsuka. Por alguns anos, a dupla funcionou — os tênis japoneses chegavam ao mercado americano através da pequena empresa de Knight.
A parceria terminou mal. Knight e seu sócio Bill Bowerman desenvolveram seus próprios designs, e em 1972 fundaram a Nike, lançando uma linha de tênis que os ex-parceiros japoneses alegavam ser cópias das silhuetas da Onitsuka. A disputa jurídica foi resolvida. A rivalidade ficou gravada na história do tênis.
Em 1977, a Onitsuka se fundiu com outras duas empresas esportivas japonesas para formar a ASICS Corporation. O nome Onitsuka Tiger ficou em segundo plano por décadas.
Em 2003, Uma Thurman calçou um par de Onitsuka Tiger amarelo e preto no filme Kill Bill de Quentin Tarantino. Uma personagem chamada A Noiva — vingança, violência, samurai, cultura pop japonesa — usando os tênis de um ex-soldado que queria reconstruir o Japão através do esporte.
Num único plano cinematográfico, o tênis voltou ao imaginário global. As vendas explodiram. Jovens que nunca tinham ouvido falar em Kihachiro Onitsuka queriam o modelo que "a garota de Kill Bill" usava.
Bruce Lee já havia usado Onitsuka Tiger durante a filmagem de Game of Death. Mas foi Tarantino que transformou o tênis em fetiche de moda intencional.
Hoje, a Onitsuka Tiger opera como marca independente dentro do grupo ASICS, focada em lifestyle. Colaborações com estilistas como Andrea Pompilio e parceiros como Valentino e Givenchy posicionaram a marca num território que Kihachiro Onitsuka nunca imaginou quando fazia tênis de basquete para estudantes de colegial em Kobe. Mas a silhueta do Mexico 66 permanece a mesma. A listras laterais são as mesmas de 1966. O tênis que venceu a Maratona de Boston em 1951 ainda tem a mesma forma básica.
O que mudou foi a história que as pessoas projetam nele. Que é, no fim, o que transforma um produto em ícone.