O menino do Brooklyn que pichava paredes e o rei pop de Pittsburgh. Em 1982, eles dividiram um estúdio, uma fama e talvez muita coisa que nenhum dos dois soube administrar.
Jean-Michel Basquiat tinha 21 anos quando entrou pela primeira vez na Factory de Andy Warhol. Já tinha exposições, já tinha reconhecimento nos círculos de vanguarda nova-iorquinos, mas ainda era considerado jovem demais, cru demais, perigoso demais para o establishment da arte. Warhol tinha 54 anos, era uma instituição viva, e estava, segundo muitos críticos da época, numa fase de declínio criativo. O encontro dos dois mudou os dois — de formas diferentes.
A amizade foi imediata e intensa. Eles almoçavam juntos regularmente, frequentavam os mesmos eventos, começaram a pintar lado a lado. Warhol passou a carregar uma câmera polaroid para onde quer que fossem e fotografava Basquiat com a obsessão de quem sabia estar diante de algo que não conseguia categorizar. Basquiat, por sua vez, encontrou em Warhol algo que raramente havia tido: alguém que levava seu trabalho a sério sem exigir que ele fosse diferente.
"Warhol fotografava Basquiat com a obsessão de quem sabia estar diante de algo que não conseguia categorizar."
Em 1985, os dois expuseram juntos na galeria Tony Shafrazi, em Manhattan. A crítica foi cruel. A maioria dos textos da época tratou Basquiat como aprendiz promovido além de sua capacidade e Warhol como um velho querendo rejuvenescer pela proximidade com o jovem. A exposição foi considerada um fracasso comercial e crítico. Basquiat ficou devastado. Segundo testemunhos próximos, foi esse julgamento que aprofundou seu mergulho nas drogas.
Décadas depois, a pergunta que ainda divide historiadores da arte é inevitável: Warhol explorou Basquiat? A resposta honesta é: provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo. Warhol estava genuinamente fascinado pela obra e pela pessoa de Basquiat — seus diários registram essa admiração com frequência e sem afetação. Mas ele também sabia que a associação com um artista negro jovem e radical refrescava sua imagem num momento em que ela precisava de renovação.
Basquiat, por outro lado, não era ingênuo. Ele entendia as dinâmicas de poder que operavam no mundo da arte e as incorporava em seu trabalho como tema explícito. A tensão entre o jovem negro e o mercado branco que o consumia estava pintada nas próprias telas — era o assunto, não apenas o contexto.
Quando Warhol morreu em fevereiro de 1987, Basquiat perdeu mais do que um amigo. Perdeu o único ponto de estabilidade que havia encontrado dentro de um mundo que o devorava. Ele morreu de overdose em agosto de 1988, com 27 anos. As obras que os dois fizeram juntos valem hoje dezenas de milhões de dólares — um número que diz tudo e nada sobre o que de fato aconteceu entre eles.