Esporte, Moda

Como a NBA transformou o túnel de entrada em desfile de moda

Existe um momento específico, repetido dezenas de vezes por temporada, que mudou silenciosamente a relação entre esporte profissional e moda global: o jogador de basquete descendo de um ônibus ou chegando a uma arena, câmeras já posicionadas, look produzido com o mesmo cuidado que uma editora de moda colocaria num shoot de revista. O momento tem nome. Chama-se tunnel walk — a caminhada pelo corredor que leva ao vestiário antes do jogo — e se tornou, ao longo dos últimos quinze anos, um dos eventos de moda mais assistidos, comentados e influentes do mundo. Não porque alguém planejou isso. Mas porque alguns atletas entenderam, antes da própria indústria da moda, que o corpo de um jogador de basquete é um dos suportes mais visíveis do planeta.

Para entender como o túnel virou passarela, é preciso voltar a 2005 — e a uma decisão que o comissário da NBA David Stern tomou por razões completamente diferentes das que tornaram essa decisão historicamente significativa. Stern instituiu um dress code obrigatório para jogadores fora de quadra: roupas esportivas proibidas durante partidas e eventos oficiais, substituídas por 'business casual' ou trajes formais. A medida foi amplamente criticada como racialmente motivada — uma tentativa de suavizar a estética do hip-hop que jogadores negros haviam trazido para a liga e que alguns patrocinadores e donos de franquias consideravam problemática. Allen Iverson, que havia definido a estética do jogador de rua com suas correntes, bandanas e roupas largas, era o alvo não declarado.

O que aconteceu depois foi o oposto do que Stern provavelmente esperava. Os jogadores não apenas aceitaram o dress code — o transformaram em arena de expressão. Se era obrigatório aparecer vestido, seria obrigatório aparecer vestido da forma mais interessante possível. Russell Westbrook, então no Oklahoma City Thunder, foi um dos primeiros a entender que a chegada ao estádio era uma oportunidade de comunicação que nenhum uniforme poderia oferecer. Começou aparecendo com combinações que misturavam alfaiataria com streetwear, peças vintage com lançamentos de luxo, acessórios que nenhuma regra de dress code havia antecipado. As fotos circulavam na internet antes mesmo do apito inicial.

LeBron James, com sua capacidade de transformar qualquer coisa que toca em fenômeno cultural, percebeu o potencial mais cedo do que quase todo mundo. Seu investimento em marcas como Spring Hill e sua curadoria pessoal de looks para chegadas e saídas de arenas não foi acidental — foi estratégico. LeBron entendeu que sua presença no túnel era cobertura de mídia garantida, que qualquer peça que ele vestisse seria fotografada e reproduzida milhões de vezes, e que essa visibilidade valia dinheiro que não estava sendo capturado por nenhuma das partes envolvidas se não houvesse intencionalidade.

A indústria da moda demorou alguns anos para perceber o que estava acontecendo, mas quando percebeu, reagiu com a velocidade que o dinheiro sempre produz. Virgil Abloh — que antes de ser diretor criativo da Louis Vuitton Menswear havia construído sua carreira exatamente na interseção entre streetwear, hip-hop e alta moda — foi central na formalização dessa relação. Abloh tinha acesso ao mundo do esporte via sua amizade com Kanye West e via sua própria trajetória na cultura urbana americana, e usou esse acesso para criar produtos que eram simultaneamente objetos de luxo e objetos de cultura de rua. Quando Dwyane Wade apareceu num tunnel walk vestindo Louis Vuitton, foi uma declaração de que a fronteira entre as duas culturas havia desaparecido.

O fenômeno não é apenas estético — é econômico e político. Os jogadores da NBA são, em sua esmagadora maioria, homens negros. A narrativa histórica do esporte americano sempre tentou separar o atleta negro do consumidor cultural negro — o jogador era contratado para jogar basquete, não para definir tendências, não para ter opiniões sobre política, não para construir impérios. O tunnel walk é uma recusa sistemática e visível dessa separação. Cada look é uma afirmação de que aquele corpo tem gosto, tem cultura, tem identidade que não começa e não termina com o basquete.

Há também uma dimensão geracional importante. Os jogadores que criaram e sustentam a cultura do tunnel walk cresceram com o hip-hop, com o streetwear, com a cultura sneaker como parte integrante da identidade. Para eles, a roupa nunca foi apenas proteção ou conformidade social — foi linguagem. O mesmo músculo cultural que o rap desenvolveu para transformar roupa em declaração foi aplicado ao esporte profissional. O resultado foi que atletas como Shai Gilgeous-Alexander, P.J. Tucker — conhecido por aparecer com tênis raríssimos valendo dezenas de milhares de dólares — e Kelly Oubre Jr. passaram a ser citados em editoriais de moda ao lado de modelos profissionais e diretores criativos.

As marcas de luxo responderam com colaborações que seriam inimagináveis vinte anos atrás. Gucci com jogadores de basquete. Dior com atletas de múltiplos esportes. Louis Vuitton com a NBA numa parceria oficial que inclui a maleta que carrega o troféu Larry O'Brien sendo um objeto Vuitton. A fronteira entre esporte e moda foi, por decisão de quem controla ambos os mercados, deliberadamente dissolvida.

O que isso revela sobre o momento cultural em que vivemos é mais complexo do que parece. Por um lado, é a afirmação histórica de que a cultura negra americana — que criou o hip-hop, o streetwear, a cultura sneaker, e que sempre foi central para a NBA — é agora reconhecida como produtora de tendências globais e não apenas como consumidora das tendências que outros produzem. Por outro lado, há a pergunta incômoda sobre quem captura o valor econômico dessa produção. As marcas de luxo que se beneficiam da associação com atletas negros são controladas, em sua esmagadora maioria, por grupos europeus. Os algoritmos de plataformas que distribuem os vídeos dos tunnel walks são controlados por empresas do Vale do Silício. O reconhecimento chegou. A distribuição equitativa do que ele gera ainda está longe de chegar junto.