Cultura, Moda

A ascensão do ‘slow fashion’ africanos

Enquanto o debate ocidental sobre sustentabilidade na moda continua girando em torno das mesmas marcas escandinavas de linho orgânico e das mesmas coleções de 'cápsula' em paletas neutras, uma outra conversa acontece simultaneamente em Lagos, Nairóbi, Dakar, Acra e Joanesburgo — e ela é mais radical, mais tecnicamente sofisticada e historicamente mais profunda do que qualquer coisa que a moda 'consciente' do Norte Global produziu. O problema é que o sistema de atenção da indústria da moda global foi construído com um mapa que coloca Paris, Milão, Nova York e Londres no centro. Tudo que acontece fora dessas coordenadas existe em relação a elas — como influência a ser absorvida, como mercado a ser desenvolvido, raramente como centro criativo independente.

O slow fashion africano não foi inventado como resposta ao fast fashion. Ele simplesmente nunca parou de existir. A produção têxtil artesanal do continente africano é uma das tradições técnicas mais longas e mais diversas do mundo — mais longas, em muitos casos, do que as tradições europeias que são tratadas como referência. O kente ghanense, tecido em tear manual em faixas estreitas que são depois costuradas para formar o pano completo, tem uma história documentada de pelo menos quinze séculos. O adire iorubá — tecido de algodão tingido com índigo usando técnicas de batik e amarração que criam padrões geométricos de complexidade extraordinária — é produzido ainda hoje nos mesmos bairros de Abeokuta onde era produzido há trezentos anos.

O bogolan, ou 'mud cloth' do Mali, é talvez o exemplo mais eloquente do que essa tradição representa. Produzido exclusivamente por mulheres bambarás, o bogolan é um algodão tecido manualmente e depois coberto com lama fermentada de rio que, em reação com um tratamento prévio de folhas de N'galama, cria padrões brancos e escuros de precisão geométrica. O processo leva semanas. Cada peça é única. Os padrões carregam significados específicos — identidade familiar, status, fase da vida — que são legíveis dentro da comunidade que os produz. É, por qualquer critério relevante, alta costura: trabalho manual de expertise extraordinária, materiais locais, design carregado de significado cultural.

Essa produção existia completamente fora do sistema de reconhecimento da moda global até que uma geração de designers africanos que cresceu entre continentes — estudando em escolas de moda europeias, trabalhando em ateliês internacionais, mas mantendo conexões profundas com as tradições do continente — começou a criar trabalho que colocava essas tradições em diálogo com a linguagem contemporânea da moda.

Kenneth Ize, designer nigeriano formado em Viena que começou a ganhar atenção internacional em 2019, trabalha com tecelões tradicionais aso-oke no estado de Ondo, na Nigéria, para produzir tecidos que depois transforma em roupas com cortes que transitam entre alfaiataria europeia e referências iorubás. Thebe Magugu, designer sul-africano que ganhou o Prêmio LVMH em 2019 — o mais importante prêmio para designers emergentes no mundo — usa a África do Sul como laboratório criativo, pesquisando tecidos locais, história política e cultura popular para criar coleções que são profundamente específicas e ao mesmo tempo legíveis globalmente. Lisa Folawiyo, nigeriana que opera desde Lagos, transformou o tecido Ankara — o wax print que é onipresente na África Ocidental — de material de uso cotidiano em objeto de luxo através do bordado elaborado e dos cortes ousados.

 

O que esses designers têm em comum não é apenas a origem geográfica — é uma postura intelectual específica em relação ao material. Eles não estão usando as tradições têxteis africanas como decoração exótica ou como gesto de identidade política superficial. Estão tratando-as como o que são: sistemas técnicos sofisticados, desenvolvidos ao longo de séculos, com profundidade suficiente para sustentar inovação contemporânea. A diferença entre usar um padrão kente como referência visual e entender a gramática do kente a ponto de desenvolver novos padrões dentro da sua lógica interna é enorme — e é exatamente essa diferença que separa o trabalho desses designers do 'ethnic print' que marcas europeias usam como tendência de temporada.

O Ocidente ainda não prestou atenção completa porque tem um problema estrutural com centros criativos fora do seu perímetro geográfico habitual. As semanas de moda de Paris, Milão, Nova York e Londres não foram construídas para incluir Lagos ou Nairóbi como centros de origem de tendências — foram construídas para incluir essas cidades como mercados de destino. Essa arquitetura de atenção é difícil de reformar porque serve interesses econômicos reais: os grupos de luxo europeus têm interesse em que o sistema de reconhecimento continue colocando o trabalho criativo que eles controlam no topo da hierarquia.

Mas o mercado africano está mudando de forma independente dessas hierarquias. A classe média que cresce em Nigéria, Quênia, África do Sul, Etiópia e em outros países do continente tem renda disponível, tem identidade cultural que quer expressar em roupa, e tem acesso crescente a designers locais que entendem essa identidade de formas que nenhuma marca europeia jamais entenderá completamente. Esse mercado interno não precisa de validação de Paris para existir — e sua existência, crescendo silenciosamente enquanto a crítica de moda ocidental continua descobrindo 'influências africanas' em coleções europeias, é a prova mais eloquente de que o centro do mapa da moda já está se deslocando. O olhar hegemônico só ainda não reparou.