Cultura, Música

Coltrane, Kuti e Pascoal: os músicos que reinventaram o jazz

Existe um tipo de música que não se ouve apenas com os ouvidos. Que exige uma disponibilidade específica — não de análise, não de fruição passiva, mas de algo mais parecido com entrega. Que opera em dimensões que a teoria musical ocidental nomeia com dificuldade porque as categorias que essa teoria usa foram construídas para outro tipo de experiência. John Coltrane, Fela Anikulapo-Kuti e Hermeto Pascoal produziram músicas desse tipo, cada um a partir de uma tradição radicalmente diferente, cada um respondendo a contextos históricos específicos, e o que eles têm em comum é mais iluminador para entender a música do século XX do que qualquer semelhança técnica ou influência direta entre eles.

A trajetória de John Coltrane não pode ser entendida separada da crise espiritual de 1957, quando o músico se submeteu a um processo de desintoxicação depois de anos de dependência de heroína e álcool. Coltrane descreveu a experiência em termos que cruzam o psicológico e o espiritual: como uma abertura, como a remoção de uma camada que impedia que algo maior chegasse. A música que ele fez depois disso é diferente não apenas estilística mas essencialmente diferente — como se o músico tivesse encontrado, depois da crise, um propósito que a música de entretenimento convencional não conseguia mais satisfazer.

A ascensão de My Favorite Things, o álbum de 1961 que ficou famoso por uma versão de 16 minutos de uma canção de The Sound of Music, demonstrou o que Coltrane havia descoberto: que o jazz podia ser uma prática de improvisação sem fim previsível, onde o ponto não era chegar a algum lugar, mas permanecer no processo de chegada. A influência da música indiana — especialmente do raga e do conceito de alap, o desenvolvimento lento e meditativo antes do tempo rítmico — foi central nessa descoberta. Coltrane estudou com Ravi Shankar, não para copiar a técnica da música indiana, mas para entender uma abordagem ao tempo musical que a tradição jazzística ocidental não havia desenvolvido.

A Love Supreme (1964) é o resultado mais completo dessa busca. Em quatro movimentos — Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm — Coltrane cria um objeto sonoro que é simultaneamente uma oração, uma declaração de intenção artística e um trabalho de composição rigorosa. O álbum começa com o saxofone enunciando um motivo de quatro notas que é repetido, transformado, elevado ao longo de toda a obra. No final, Coltrane recita um poema sobre gratidão e graça. É uma das poucas gravações de jazz que você pode chamar, sem exagero, de sagrada — no sentido de que foi criada para existir num espaço diferente do entretenimento.

Fela havia estudado música em Londres nos anos 1960, voltado para a Nigéria e formado bandas de funk e highlife que eram competentes mas sem a intensidade que viria depois. A transformação aconteceu em Los Angeles em 1969, quando Fela entrou em contato com o movimento Black Power americano — com as ideias de Malcolm X, com os Panteras Negras, com a afirmação de identidade africana que o movimento negro americano articulava com uma urgência que a Nigéria do pós-independência, tentando construir uma identidade nacional moderna, ainda não havia encontrado.

Fela voltou para Lagos com o que chamava de 'blackism' — uma filosofia de afirmação cultural africana que recusava tanto o legado colonial britânico quanto a modernidade ocidental que havia substituído a colonização formal. E criou o afrobeat como expressão musical dessa filosofia: estruturas rítmicas longas e hipnóticas baseadas em percussão africana, harmonias e texturas inspiradas no funk e no jazz de James Brown e Miles Davis, letras em inglês pidgin que criticavam com precisão cirúrgica a corrupção dos governos nigeriano e a cumplicidade do Ocidente.

O Shrine, o clube que Fela manteve em Lagos por décadas, era mais do que um espaço de shows — era uma instituição cultural paralela, um território autônomo onde as regras do Estado nigeriano não se aplicavam completamente. Os shows duravam a noite inteira. As músicas tinham 20, 30, 40 minutos. A dança era obrigatória. O fumo de maconha era explícito. As letras eram processos jurídicos contra os poderosos, apresentadas com evidências e argumentos. O Shrine foi destruído por soldados nigerianos em 1977 — sua mãe, Funmilayo, foi jogada de uma janela durante o ataque e morreu em consequência dos ferimentos. Fela continuou tocando.

Hermeto Pascoal representa uma terceira via: a de um músico que não chegou à espiritualidade através da crise ou da política, mas através de uma curiosidade sobre o som que não tem limites disciplinares. Nascido cego em Lagoa da Canoa, Alagoas, em 1936, Hermeto aprendeu a tocar ouvindo — e aprendeu a ouvir de uma forma que a maioria das pessoas nunca desenvolve porque não precisa. Cada elemento do ambiente é para Hermeto uma fonte sonora potencial: o choro de uma criança, o guincho de um porco, o assobio do vento, o borbulhar de água numa chaleira. Sua obra inclui composições escritas a partir do som de flores, de planetas, do sopro de bebês recém-nascidos.

O que os três partilham não é técnica, não é gênero, não é origem geográfica. É uma postura diante da música que recusa sua redução a entretenimento ou a produto. Para Coltrane, a música era uma forma de oração — um ato de gratidão que precisava da máxima seriedade para ser honesto. Para Fela, era uma arma — um instrumento político que precisava da máxima intensidade para ser eficaz. Para Hermeto, é a linguagem da percepção — uma forma de estar no mundo que não distingue entre o que é considerado musical e o que não é. Num momento em que a música ambiente virou categoria de streaming para aumentar produtividade, ouvir esses três é lembrar que a música pode ser uma das experiências mais exigentes e mais transformadoras que um ser humano pode ter — se você estiver disposto a receber o que ela oferece.