Cultura, Música

A mulher que inventou o videoclipe

As histórias oficiais do videoclipe costumam começar no mesmo lugar: 1 de agosto de 1981, às 12h01 da manhã, quando a MTV foi ao ar nos Estados Unidos com Video Killed the Radio Star dos Buggles. É um marco conveniente, narrativamente satisfatório, fácil de ancorar num momento e num lugar específicos. É também, como a maioria dos marcos históricos que elegemos com tanta facilidade, uma simplificação que apaga décadas de experimentação anterior e, especificamente, apaga o trabalho de mulheres que foram centrais no desenvolvimento da linguagem visual da música popular antes que ela tivesse um nome ou um canal de televisão a cabo.

O problema começa antes mesmo do rock and roll. Maya Deren — cineasta ucraniana-americana que emigrou para os Estados Unidos em 1922 — produziu entre 1943 e 1959 uma série de curtas-metragens que são, na sua estrutura, na sua relação com a música e na sua abordagem ao corpo em movimento, mais próximos do videoclipe moderno do que qualquer coisa que a indústria musical estava fazendo na mesma época. Meshes of the Afternoon (1943), filmado em co-autoria com seu então marido Alexander Hammid, usa a câmera lenta, a repetição, a superimposição e a edição não-linear para criar uma experiência que é simultaneamente narrativa e lírica. A Divine Horsemen: The Living Gods of Haiti (1985), editada postumamente a partir de filmagens que Deren fez no Haiti nos anos 1940 enquanto estudava rituais do candomblé haitiano, é um documento de performance ritual que tem mais DNA de videoclipe do que de documentário convencional.

Deren nunca foi creditada como precursora do videoclipe porque quando sua obra foi produzida, o videoclipe ainda não existia como categoria — e quando o videoclipe surgiu como categoria, quem escreveu sua história não estava olhando para artistas experimentais femininas dos anos 1940. Estava olhando para a MTV. O apagamento não foi conspiração — foi inércia de atenção, que é frequentemente mais eficaz do que a conspiração.

A história das promos — as filmagens de artistas musicais produzidas especificamente para televisão que antecederam e tornaram possível o videoclipe como formato — é igualmente marcada por contribuições femininas que raramente aparecem nos relatos históricos. As promos dos Beatles dos anos 1960, consideradas entre as primeiras filmagens musicais com consciência visual autoral, foram em parte moldadas pela influência de diretoras e editoras que trabalhavam na televisão britânica. As promos de David Bowie nos anos 1970, que definiram boa parte da gramática visual do que o videoclipe se tornaria, contaram com colaborações criativas que a historiografia concentrada nos nomes masculinos frequentemente não detalha.

O caso mais documentado — e ainda assim insuficientemente reconhecido — é o de Mary Lambert. Entre 1983 e 1985, Lambert dirigiu Material Girl, Like a Virgin e Papa Don't Preach para Madonna. Esses três videoclipes não foram apenas sucessos comerciais — foram momentos de definição de linguagem. Material Girl, com sua referência a Gentlemen Prefer Blondes de Marilyn Monroe, estabeleceu o videoclipe como espaço de citação cinéfila consciente e de ironia visual sofisticada. Like a Virgin, com seu yacht e seu Venezia, usou o enquadramento e a montagem para criar uma leitura ambígua da letra que Madonna sozinha não poderia ter criado. Papa Don't Preach, com sua narrativa de gravidez adolescente filmada com uma austeridade quase documental, provou que o videoclipe podia carregar peso dramático equivalente ao de um curta-metragem.

Lambert seguiu para o cinema — dirigiu Pet Sematary em 1989 — e sua carreira posterior foi consistente mas nunca atingiu o nível de reconhecimento que os videoclipes de Madonna justificariam. O mesmo padrão se repete com outras diretoras que foram centrais no desenvolvimento do formato nos anos 1980 e 1990: Floria Sigismondi, que dirigiu os videoclipes mais importantes de Marilyn Manson e de David Bowie antes de ser amplamente reconhecida; Sophie Muller, que construiu com Sinéad O'Connor, Annie Lennox e Garbage um corpus visual que definiu uma certa estética dos anos 1990; Melodie McDaniel, que trabalhou com artistas do hip-hop e do R&B em momentos de formação do vocabulário visual desses gêneros.

O apagamento das mulheres na história do videoclipe segue um padrão que se repete em outros campos criativos: quando o formato se institucionaliza e começa a ser tratado como arte ou como história cultural digna de análise, o relato que se cristaliza tende a privilegiar os diretores que foram para o cinema — que são, desproporcionalmente, homens — e a tratar as diretoras que ficaram no videoclipe como trabalhadoras do mercado em vez de artistas do formato.

O videoclipe sobreviveu à MTV, sobreviveu ao declínio da televisão como veículo primário de consumo musical e vive hoje no YouTube, no Instagram, no TikTok. Em cada plataforma, o formato evoluiu — a vertical do TikTok, a imersão do YouTube, a fragmentação do Instagram Reels — mas a questão central permanece a mesma que era na promo dos Beatles e no short film de Maya Deren: como usar a imagem em movimento para ampliar, contradizer, transformar ou simplesmente acompanhar a experiência musical. Essa questão foi explorada por muita gente antes de 1981. A maioria deles é mulher. A maioria delas não aparece nos créditos.