Existe algo subversivo em segurar um pedaço de papel com as mãos hoje. Não porque papel seja raro — é porque atenção é. Vivemos num ambiente de comunicação construído para maximizar o tempo de tela, onde cada aplicativo compete pelo mesmo milissegundo de foco com mecanismos de design cada vez mais sofisticados. Nesse contexto, uma publicação que exige que você a retire de um envelope, abra, segure e leia — sem notificação nenhuma, sem sugestão de próximo conteúdo, sem algoritmo orientando a experiência — é uma proposição radicalmente diferente de tudo que está na tela. O zine, descobriu uma geração que cresceu digital, é uma forma de existir num tempo diferente.
A história do zine é mais longa e mais rica do que seu ressurgimento contemporâneo sugere. O formato — publicação independente, de baixa tiragem, produzida e distribuída fora dos circuitos comerciais — tem raízes nos anos 1930, quando os primeiros fanzines de ficção científica americanos começaram a circular entre leitores que queriam discutir os contos publicados em revistas como Amazing Stories e Weird Tales. O próprio vocabulário que hoje usamos para descrever comunidades de fãs — 'fandom', 'canon', 'shipping' — tem suas origens nesses primeiros zines de ficção científica, onde os leitores debatiam universos ficcionais com uma seriedade que a indústria editorial nunca havia considerado possível.
O zine como objeto político emergiu com força nos anos 1970, especialmente no contexto do punk britânico e americano. O Sniffin' Glue, produzido em Londres a partir de 1976, tornou-se o arquétipo: duas páginas xerocadas, texto produzido com máquina de escrever e letras recortadas de jornal, distribuídas à mão em shows e por correio. O ponto não era a qualidade gráfica — era a democratização da publicação. Qualquer um com acesso a uma xerox podia ter um zine. Qualquer um com um zine podia ter uma voz. A indústria musical e a imprensa convencional haviam construído barreiras de entrada tão altas que excluíam sistematicamente as perspectivas de quem não tinha acesso a estúdio, redação ou capital. O zine derrubou essas barreiras com rudeza e entusiasmo.
Nos anos 1990, o zine se tornou o veículo central do movimento Riot Grrrl — a onda feminista punk que emergiu em Olympia, Washington e em Washington D.C. e que produziu algumas das críticas mais lúcidas e furiosas da cultura patriarcal da cena musical. Zines como Bikini Kill, Jigsaw e Girl Germs circulavam em shows, em livrarias feministas e por rede postal numa época anterior à internet, construindo uma comunidade nacional a partir de pedaços de papel. O conteúdo era pessoal, político, raivoso e frequentemente brilhante: ensaios sobre abuso, sobre o corpo, sobre música, sobre o que significa ser uma mulher jovem e brava numa cultura que quer você quieta.
O presente ressurgimento do zine tem um perfil mais heterogêneo. Não é apenas punk, não é apenas político — é um espectro que vai da poesia ao fanzine de futebol, do ensaio fotográfico em risografia à análise cinematográfica de 80 páginas impressa em casa. O que une esse espectro diverso é menos o conteúdo do que a motivação: uma recusa das condições que as plataformas digitais impõem à criação.
Os criadores que estão produzindo zines hoje descrevem, com notável consistência, as mesmas frustrações: a tirania do algoritmo, que recompensa regularidade e volume acima de qualidade; a demonetização súbita e inexplicável; a sensação de estar criando para a plataforma em vez de para o público; a impossibilidade de construir qualquer tipo de relação estável com quem lê quando o feed de cada pessoa é diferente a cada dia. O zine resolve esses problemas não por ser tecnologicamente superior, mas por ser radicalmente diferente: tiragem fixa, distribuição intencional, ausência de métricas. Você não sabe quantas pessoas leram. Você sabe quem pediu.