Cultura, Esporte

O surfe saiu da praia e foi para a passarela

Existe um momento preciso em que o surfe deixou de ser uma subcultura de praia e se tornou uma estética global disponível para compra. É difícil fixar uma data, mas o processo estava claramente em curso nos anos 1990, quando marcas como Quiksilver, Billabong e Rip Curl — que haviam começado como fornecedoras de equipamento para surfistas reais — descobriram que havia um mercado muito maior para a estética do surfe do que para o surfe em si. As bermudas largas, as camisas estampadas, os bonés e as sandálias de borracha passaram a ser vendidos em shoppings do interior de São Paulo, do Kansas e da Suíça para pessoas que nunca haviam visto o oceano. O surfe havia se tornado um produto antes de terminar de se entender como cultura.

Nos anos 2010 e 2020, a absorção da estética do surfe pela moda de luxo completou um processo que as marcas de surf wear haviam iniciado. Coleções de marcas como Givenchy, Jacquemus, Casablanca e Loro Piana incorporaram elementos visuais do surfe — as cores, as texturas, a silhueta relaxada, a referência ao oceano e ao sol — em peças que custavam centenas ou milhares de euros e que eram apresentadas em desfiles em Paris e Milão. A campanha de Pharrell Williams para a Louis Vuitton usou imagery de praia e de surf como contexto visual para produtos que nenhum surfista usaria dentro da água. O surfe havia chegado ao topo da hierarquia da moda global.

Enquanto isso, nas praias onde o surfe de fato acontece, a realidade cultural era consideravelmente mais complicada. O surfe profissional — organizado principalmente pelo Championship Tour da WSL — era em 2020 um dos esportes mais brancos e geograficamente concentrados do mundo de alto rendimento. Os melhores surfistas do circuito vinham predominantemente da Austrália, dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal. A representação de surfistas negros, de outras etnias não-brancas e de mulheres no topo do circuito era dramaticamente desproporcional à presença dessas populações em comunidades costeiras ao redor do mundo.

No Brasil, onde o surfe tem uma história longa e uma base de praticantes enorme, a exclusão racial dentro da cultura de surf é documentável e raramente discutida com a honestidade que merece. As praias brasileiras têm uma geografia social que reproduz as desigualdades da cidade: as praias do Leblon e de Ipanema no Rio, de Jurerê Internacional em Florianópolis, de Maresias no litoral paulista são espaços onde a branquitude econômica é a norma. As praias mais acessíveis — geográfica e economicamente — tendem a ser as menos frequentadas pela mídia de surf, as que produzem menos patrocínios, as que existem menos na iconografia que as marcas constroem.

A questão de gênero dentro do surfe tem uma trajetória paralela e igualmente reveladora. O surfe feminino foi, durante décadas, tratado pela indústria como um mercado secundário — com premiações menores, menos cobertura de mídia, contratos de patrocínio significativamente inferiores aos dos surfistas homens de nível equivalente. A WSL estabeleceu igualdade de premiação entre homens e mulheres no Championship Tour apenas em 2019, depois de décadas de pressão de atletas e de ativistas. O gesto foi importante e tardio. E foi recebido pela indústria com a quantidade de relações públicas que gestos tardios costumam gerar quando finalmente acontecem.

Há também uma tensão geográfica dentro do surfe global que a estética de luxo completamente ignora. As praias da Indonésia, de Portugal, do Brasil, da África do Sul e das ilhas do Pacífico que produzem algumas das melhores ondas do mundo são frequentemente locais onde comunidades costeiras locais lidam com a chegada de surfistas estrangeiros que competem pelo acesso às ondas sem necessariamente criar relação com a comunidade que vive naquele lugar. O fenômeno do localism — a defesa às vezes agressiva do território de surf por quem mora ali — é, em parte, uma resposta a esse processo: a tentativa de comunidades locais de manter acesso a um recurso natural que a globalização do surf transforma progressivamente em destino turístico.

A Swatch e a WSL organizam o Pipe Masters no Havaí, evento mais famoso do circuito mundial, numa praia onde a cultura havaiana do surf — que foi, historicamente, a origem de toda a tradição moderna do esporte — tem uma presença cada vez mais simbólica e cada vez menos substantiva na competição que leva seu nome. O Duke Kahanamoku, o havaiano que popularizou o surfe no mundo no início do século XX, está numa estátua na praia. Os surfistas no lineup são, em sua maioria, australianos, americanos e brasileiros.

Nada disso impede o surfe de ser o que é. A relação física entre um corpo humano e uma onda de oceano continua tendo uma qualidade que nenhum produto de luxo e nenhuma campanha de marketing consegue replicar. O problema não é o surfe — é a distância entre o que o surfe é e o que as marcas que vendem sua imagem dizem que ele é. Quando Jacquemus faz um desfile numa praia do sul da França e vende o resultado como homenagem à cultura do surf, está vendendo uma versão do surf que tem a cor certa, o sol certo, as silhuetas certas — e que cuidadosamente omite as pessoas, os conflitos e as contradições que fazem a cultura real.