Há algo acontecendo nas periferias do Brasil que ainda não recebeu o nome certo. Um deslocamento sonoro silencioso, gradual, que está reescrevendo os códigos da festa popular e reorganizando as filiações culturais de uma geração inteira. Não é um movimento com manifesto, com líder ou com data de fundação. É uma conversa — às vezes consciente, às vezes instintiva — que o Atlântico Sul vem travando há décadas, e que agora está ficando suficientemente alta para que quem queira ouvir não precise mais se esforçar muito.
O kuduro é talvez o fio mais visível dessa trama. Nascido em Luanda no início dos anos 1990, desenvolvido nos musseques — as periferias informais da capital angolana — como resposta ao afrocubanism eletrônico e ao zouk cabo-verdiano, o kuduro chegou ao Brasil pelas rotas que a imigração africana construiu nas últimas décadas. São Paulo tem a maior comunidade de angolanos fora de Angola; o bairro do Pari, o Brás, o Belém guardam festas que funcionam como reproduções portáteis de Luanda. O kuduro não chegou por gravadora, não chegou por rádio. Chegou nos bolsos de quem veio.
O que torna o kuduro particularmente relevante como fenômeno é sua resistência à domesticação. Diferente de outras músicas que chegam ao Brasil vindas da África e que são imediatamente absorvidas pela indústria — suavizadas, remixadas, tornadas palatáveis para o consumo mainstream — o kuduro manteve nas comunidades brasileiras uma identidade áspera e autônoma. As festas de kuduro em São Paulo não são shows: são bailes fechados, de convite ou de correria, onde a música e a dança existem em função de quem dança, não de quem assiste.
O afrobeats — atenção: 'afrobeats' no plural, diferente do afrobeat singular de Fela Kuti — é o caso contrário: uma música que chegou ao Brasil pelo mainstream global antes de chegar pela diáspora. Lagos produziu nos últimos quinze anos uma cena musical que progressivamente ocupou posições de prestígio nos mercados americano, britânico e europeu. Burna Boy ganhou um Grammy. Wizkid lotou o O2 Arena em Londres. Davido acumula colaborações com artistas americanos que há dez anos não teriam curiosidade sobre o que acontecia na Nigéria. E com essa visibilidade global, o afrobeats chegou às plataformas de streaming brasileiras com o peso que o sucesso comercial carrega.
O que torna o fenômeno do afrobeats no Brasil interessante não é o consumo em si — é a especificidade de quem consome. O público brasileiro de afrobeats não é difuso. É concentrado entre jovens negros de centros urbanos que encontram nessa sonoridade um espelhamento que a música popular brasileira mainstream nem sempre oferece. O groove do afrobeats, sua relação com o corpo, a estética visual dos artistas, a forma como lida com orgulho e africanidade — tudo isso ressoa de formas específicas com uma geração que cresceu afirmando identidades que a mídia brasileira ainda não sabe muito bem como representar.