Staten Island é o borough mais ignorado de Nova York. Não tem a energia do Bronx, não tem o prestígio de Manhattan, não tem a narrativa de Brooklyn. É o lugar de onde as pessoas dizem que são quando não querem explicar muito. Em 1993, um grupo de nove MCs dali resolveu transformar esse lugar em algo completamente diferente: Shaolin.
O nome vem do filme The 36th Chamber of Shaolin (1978), um clássico do kung fu hongkonguês que circulava nas locadoras de bairros populares de Nova York desde os anos 70. Para o RZA, o líder do Wu-Tang Clan, esses filmes não eram entretenimento. Eram mitologia. Eram a primeira vez que ele via, ainda criança, homens que se pareciam com ele — negros na diáspora africana — encontrando dignidade e poder num sistema narrativo que não dependia do olhar branco americano.
"Crescer como um garoto negro nos Estados Unidos, você sempre aprendeu na escola que tinha uma história de escravidão", disse RZA em entrevistas sobre o álbum. "Os filmes de kung fu me mostraram que existia uma história mais ampla do que aquela que me ensinaram."
Enter the Wu-Tang (36 Chambers) foi gravado no Firehouse Studio em Nova York entre o final de 1992 e o início de 1993. O orçamento era mínimo. RZA produziu tudo sozinho com equipamento simples — baterias desafinadas, samples de soul retirados de discos velhos, diálogos de filmes de kung fu recortados e colados como citações de um texto sagrado. O resultado soa como se tivesse sido gravado num porão, e era exatamente esse o ponto.
O álbum foi lançado em 9 de novembro de 1993 pela Loud Records. Na época, o hip-hop era dominado pelo G-funk da Costa Oeste — o som de Dr. Dre em The Chronic, suave, cinematográfico, cheio de sintetizadores. O Wu-Tang chegou como um contra-golpe: áspero, paranóico, denso, cheio de camadas que exigiam atenção. A Rolling Stone descreveu como "hip-hop que você não vai encontrar subindo no Billboard, mas vai ouvir saindo de Jeeps por todos os bairros certos."
Na primeira semana vendeu 30 mil cópias — números modestos. Em 1995 era disco de platina. Em 2018, platina tripla. Em 2020, a Rolling Stone colocou o álbum na posição 27 da lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos. Em 2022, a Biblioteca do Congresso dos EUA incluiu 36 Chambers no National Recording Registry por ser "culturalmente, historicamente e esteticamente significativo."