Em algum momento de 2010 ou 2011, num apartamento ou estúdio de LA, um produtor de 22 anos chamado Chauncey Hollis — conhecido como Hit-Boy — abriu o FL Studio e fez um beat em cerca de 15 minutos. Eram poucos elementos: um riff de sintetizadores gelados e repetitivos, um kick drum marcado, alguns bleeps eletrônicos. Era simples demais para ser uma hit, pensou. Deu o beat para um amigo chamado Chilly Chill, que ia jogar numa mixtape ou postar no YouTube. Então chegou um email de Don C perguntando por esse beat específico.
Don C era ligado a Kanye West. Kanye estava trabalhando num álbum colaborativo com Jay-Z — o que se tornaria Watch the Throne. Hit-Boy havia passado três semanas fazendo beats no Mercer Hotel em Nova York para o projeto, e nenhuma das faixas que achava que seriam as escolhidas chegou ao álbum. O beat que havia dado de graça para um amigo postar online era o que Kanye queria.
O arquivo foi enviado. Jay-Z e Kanye foram para Paris, completaram o track no hotel, e "N***as in Paris" existiu. Pusha T tinha sido oferecido o mesmo beat antes. Sua resposta foi direta: "Parece um video game. Tira isso daqui." Essa recusa é um dos maiores erros de julgamento documentados da história recente do hip-hop.
"N***as in Paris" é uma aula de minimalismo. O beat tem pouquíssimas camadas, mas cada uma ocupa seu espaço com precisão cirúrgica. A progressão de sínteses geladas no início abre espaço para Jay-Z e Kanye construírem sobre ela sem competição. O breakdown no meio — influenciado pelo dubstep que estava explodindo no começo dos anos 2010 — é um dos momentos de quebra de estrutura mais bem executados do rap da época.
O sample de diálogo do filme Blades of Glory (2007) — "No one knows what it means, but it's provocative!" — foi ideia de Kanye. É simultaneamente um inside joke e uma declaração de intenção: a música não precisa ser analisada, precisa ser sentida.
Jay-Z explicou a GQ que o conceito era "como obtivemos nossa riqueza, não exibindo ela." O verso dele começa com "Ball so hard motherfuckers wanna fine me" — uma referência a um episódio real em que a NBA o multou por visitar o vestiário da Universidade de Kentucky após um jogo, o que era proibido para proprietários de times da liga.
Kanye, por sua vez, se imagina como Príncipe William no casamento com Kate Middleton — e decide que preferiria as gêmeas Olsen.