Esporte, Moda

O que é o Brasilcore — e por que o mundo demorou para prestar atenção no que a periferia já sabia

Existe um momento específico em que uma coisa deixa de ser hábito e vira tendência. Para o Brasilcore, esse momento aconteceu em abril de 2022, quando Anitta subiu no palco do Coachella usando um figurino nas cores verde e amarelo e virou manchete no mundo todo. Mas qualquer pessoa que tenha crescido num bairro popular do Rio ou de São Paulo sabe que aquele visual não nasceu ali. Ele já existia. Estava nas ruas, nos bailes funk, nos campos de várzea, nas costas de quem usava camisa da seleção não como declaração política, mas porque era o que tinha — e porque era bonito.

O termo Brasilcore chegou depois, como quase sempre acontece: o nome vem de fora, a cultura já estava aqui.

O "core" é emprestado de uma tradição da internet anglófona de nomear estéticas reconhecíveis — Cottagecore, Balletcore, Gorpcore. A lógica é a mesma: identificar um conjunto de referências visuais que comunicam uma identidade. No caso do Brasilcore, essas referências incluem as cores da bandeira, chinelo Havaianas, regata canelada, shorts jeans, camiseta da seleção — especialmente os modelos retrô das décadas de 80 e 90 — e toda uma paleta de cores quentes e saturadas que o Brasil carrega na pele desde sempre.

 

Desde 2013, as cores verde e amarelo tinham sido paulatinamente apropriadas por movimentos políticos de direita no Brasil. A camisa da seleção virou símbolo de posicionamento ideológico, e muita gente passou a evitá-la por esse motivo. O Brasilcore que explodiu a partir de 2022 foi, em parte, uma resposta a isso — um movimento de artistas, influencers e criadores para ressignificar esses símbolos, devolvendo-os à cultura popular de onde nunca deveriam ter saído.

Anitta no Coachella foi uma virada. A Copa do Mundo no Catar, meses depois, consolidou o movimento. Em 2023, a Vogue França colocou o Brasilcore entre as tendências do verão no Hemisfério Norte. A marca britânica Corteiz lançou uma coleção inspirada no uniforme da seleção de 2002 — e não disponibilizou oficialmente no Brasil, gerando debate sobre quem lucra quando uma cultura se torna produto.

Essa é a contradição central do Brasilcore: ao mesmo tempo em que representa um movimento genuíno de valorização da cultura brasileira, ele corre o risco de repetir um padrão antigo — o de exotizar o que é periférico quando esse periférico chega ao circuito internacional, sem necessariamente retornar nada para quem o criou.

Em 2023, o Pavilhão Terra — com curadoria de Gabriela de Matos e Paulo Tavares — ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza. Em 2024, nas Olimpíadas de Paris, Rebeca Andrade desbancou Simone Biles e levou o ouro no solo. Em 2024, Madonna tocou de graça na praia de Copacabana para mais de um milhão de pessoas com figurino nas cores brasileiras. O Brasil estava, por múltiplas vias, ocupando espaço no imaginário global.

 

O Brasilcore não é só moda. É uma virada de percepção. Por décadas, o Brasil foi "inspiração exótica" em editoriais gringos — filtrado por um olhar de fora, sempre reduzido à praia, ao carnaval, à natureza. O que muda agora é que a estética brasileira começa a ser desejada como linguagem contemporânea, não como pano de fundo.

Mas para que isso seja mais do que modismo, é preciso que a valorização chegue também a quem criou essa cultura. O funkeiro, o skatista da periferia, o jogador de várzea, o jovem que sempre usou camisa da seleção porque era o tênis mais acessível da virada — esses são os autores do Brasilcore. Não os editoriais internacionais que o descobriram vinte anos depois.

O mundo finalmente está olhando pro Brasil. A pergunta é: o Brasil está olhando pro Brasil também?