Música

Como Lauryn Hill gravou o álbum mais importante dos anos 90

Em maio de 2001, Lauryn Hill deu uma entrevista e disse: "Sou mulher, sou pobre, sapatão, mãe solteira, preencho todas as lacunas." Estava falando sobre si mesma mas também sobre as categorias que a sociedade usa para invalidar pessoas — e sobre como havia decidido, em vez de esconder qualquer uma dessas coisas, construir um álbum inteiro a partir delas.

Três anos antes, esse álbum havia entrado na história.

The Miseducation of Lauryn Hill foi lançado em 19 de agosto de 1998 pela Ruffhouse Records e Columbia Records. Gravado após o hiato dos Fugees, o álbum foi quase inteiramente escrito e produzido pela própria Hill. É um álbum conceitual sobre aprender a amar a si mesmo, com temas que incluem complexidades de relacionamento, conflitos interpessoais, maternidade e fé.

O que essa descrição não captura é o estado em que Lauryn Hill estava quando fez tudo isso.

 

Os Fugees — Hill, Wyclef Jean e Pras Michel — haviam lançado The Score em 1996. O álbum vendeu mais de 22 milhões de cópias no mundo. "Killing Me Softly" se tornou um dos singles mais reconhecíveis da década. Hill era a voz central, o rosto do grupo, a razão pela qual a maioria das pessoas ouvia os Fugees.

Antes de The Score ser terminado, Jean — que era casado — e Hill se tornaram romanticamente envolvidos. O drama complicou o relacionamento deles e a saúde do grupo. No seu último dia no estúdio durante a gravação do álbum, ela saiu da banda, dizendo que "não conseguia mais fazer parte daquilo", mas deu a Jean e Michel permissão para usar sua voz no álbum. Antes de sair, gravou o hook de "Ready or Not" na cabine vocal como seus pensamentos finais.

Então, durante a turnê de promoção de The Score, Hill começou um relacionamento com Rohan Marley — filho de Bob Marley — e ficou grávida. A notícia da gravidez foi revelada publicamente por Wendy Williams no rádio antes que Hill tivesse dito qualquer coisa. O relacionamento com o pai do filho era desconhecido do público. A mídia começou uma especulação intensa sobre quem era o pai.

Cada vez que ela se machucava, cada vez que era decepcionada, cada vez que aprendia alguma coisa, ela escrevia uma música. Enquanto inspirada, Hill escreveu mais de 30 músicas no seu estúdio no sótão em South Orange, New Jersey. Muitas dessas músicas bebiam da turbulência nos Fugees e de experiências amorosas passadas.

 

As pessoas ao redor de Hill desaprovavam a gravidez. Em "To Zion" — dedicada ao filho — ela canta sobre a descoberta da gestação: "Olhe para sua carreira, disseram. Lauryn, baby, use sua cabeça. Mas em vez disso, eu escolhi usar meu coração."

A indústria musical era explícita: uma mulher negra grávida não podia ser levada a sério como artista solo. Wyclef Jean inicialmente não apoiou Hill gravando um álbum solo, mas eventualmente ofereceu sua ajuda como produtor. Hill recusou.

O que a gravidez fez, paradoxalmente, foi liberar. Hill disse: "Quando algumas mulheres estão grávidas, o cabelo e as unhas crescem — para mim, era minha mente e minha capacidade de criar. Eu tinha o desejo de escrever de uma maneira que não tinha há algum tempo. Eu estava muito em contato com meus sentimentos."

As sessões de gravação de The Miseducation aconteceram de setembro de 1997 a junho de 1998 — principalmente no Tuff Gong Studios, em Kingston, na Jamaica. Hill colaborou com um grupo de músicos chamado New Ark. Ela pediu harpas, tímpanos, órgãos, clarinetes — basicamente uma orquestra inteira — porque queria que o disco soasse humano, não excessivamente "perfeito" ou programado.

 

The Miseducation of Lauryn Hill estreou em número 1 na Billboard 200, vendendo 422.624 cópias na primeira semana — quebrando o recorde de vendas na primeira semana por uma artista feminina.

No Grammy de 1999, o álbum recebeu 10 indicações, vencendo 5 prêmios — incluindo Álbum do Ano, tornando-o o primeiro álbum de hip-hop a receber esse prêmio. Hill se tornou a primeira mulher a vencer cinco vezes numa única cerimônia do Grammy.

D'Angelo, que aparece em "Nothing Even Matters", disse que igrejas chegaram a substituir "Deus" nas letras das músicas — um nível de recepção espiritual que poucos álbuns pop alcançam. A Time declarou Hill a "Rainha do Hip-Hop" e ela se tornou a primeira rapper a aparecer na capa da publicação.

O título do álbum vinha de dois lugares: o filme autobiográfico The Education of Sonny Carson e o livro The Mis-Education of the Negro (1933) de Carter G. Woodson — um estudo sobre como as instituições educacionais americanas sistematicamente distorciam a história e a identidade dos afro-americanos. Hill usou "miseducação" para falar sobre aprender o amor real e a identidade fora do que a escola ou a sociedade ensinam.

Lin-Manuel Miranda citou Hill como uma de suas rappers favoritas e a referenciou em Hamilton. Drake, Kanye West, Cardi B, Lizzo e A$AP Rocky samplearam ou interpolaram músicas do álbum. Em 2021, as vendas acumuladas nos EUA foram certificadas como diamante — 10 milhões de cópias — uma primeira histórica para o álbum de uma rapper feminina.

The Miseducation continua sendo o único álbum solo de estúdio de Lauryn Hill. Não houve segundo. As razões são complexas — saúde mental, conflitos com a indústria, um recuo deliberado da vida pública que durou anos. Mas o que ficou é suficiente para que seu lugar na história seja incontestável.

Ela gravou o álbum grávida, sozinha, depois que seu grupo implodiu, depois que sua gravidez foi revelada sem sua permissão, enquanto a indústria dizia que ela não conseguiria produzir, escrever e arranjar um álbum inteiro por conta própria.

Ela provou que conseguia. E depois foi embora.