É uma das relações mais intensas da música brasileira com um artista estrangeiro — e, ao mesmo tempo, uma relação que nunca aconteceu pessoalmente. Gilberto Gil e Bob Marley nunca se encontraram. Não existe registro de aperto de mão, sessão conjunta, sequer conversa por telefone. E ainda assim, poucos artistas brasileiros dedicaram tanto da própria obra a homenagear, traduzir e absorver a música de um único ídolo estrangeiro quanto Gil fez com Marley.
O primeiro contato de Gil com o reggae aconteceu durante o exílio político em Londres, no início dos anos 1970, quando ele frequentou a região de Notting Hill e conheceu de perto a comunidade jamaicana ali estabelecida — sua primeira exposição real à música, à comida e à cultura da Jamaica. Foi ali que artistas como Bob Marley, Jimmy Cliff e Burning Spear se tornaram referência para ele. De volta ao Brasil, Gil percebeu algo que ninguém tinha articulado antes: a semelhança rítmica entre a batida do reggae e o xote, gênero nordestino de raiz europeia que ele já carregava desde a infância através da influência de Luiz Gonzaga. Foi dessa percepção que nasceu, em Refavela (1977), a fusão entre os dois ritmos nas faixas "Sandra" e "No Norte da Saudade" — o sanfoneiro Dominguinhos, ouvindo aquilo pela primeira vez, definiu a mistura como um "xotezinho sem vergonha".
O momento decisivo veio em 1979, com "Não Chore Mais", versão em português de "No Woman, No Cry" que Gil lançou no álbum Realce e que chegou ao topo das paradas brasileiras naquele ano. Foi essa canção — não um encontro pessoal, não uma turnê conjunta — que apresentou o reggae de Bob Marley ao grande público brasileiro pela primeira vez. "Quando o Brasil ouviu o reggae, se identificou. A condição geminada das culturas ficou muito evidente, nos identificamos naturalmente por causa dessa condição de povo tropical moderno", disse Gil sobre o momento.