Música

Guru: a importância dele para o Jazz Rap

Keith Elam cresceu em Roxbury, em Boston, num lar onde o jazz era presença constante. Seu pai era juiz — o primeiro juiz negro nomeado para o Boston Municipal Court — e entusiasta de jazz. Seu padrinho levava o jovem Keith e seus amigos para sentar em frente a "grandes caixas de som" e ouvir jazz em silêncio, como quem recebe uma instrução. As referencias eram Blue Note: Donald Byrd, Roy Ayers, Herbie Hancock.

Décadas depois, esse menino se tornaria Guru — Gifted Unlimited Rhymes Universal — e faria algo que ninguém havia feito da mesma maneira: convidaria os músicos que havia ouvido nesses momentos de infância para entrar no estúdio com ele.

Guru fundou o Gang Starr em 1987, e a formação que ficaria histórica se cristalizou quando DJ Premier entrou para a dupla. Entre 1989 e 2003, Guru e Premier lançaram seis álbuns que definiram o que críticos chamam de "rap arquetípico da Costa Leste" — um som construído sobre jazz sampleado, batidas minimalistas e a voz de Guru: deliberada, grave, antiespetacular.

A descrição mais precisa da voz de Guru é que ela soava como o equivalente falado de um contrabaixo de Ron Carter. Não havia afetação. Não havia performance de agressividade. Havia pensamento.
Step in the Arena (1991) e Daily Operation (1992) são dois dos álbuns mais subestimados do hip-hop dos anos 90 — modestos em recepção comercial na época, revisitados décadas depois como clássicos.

A relação entre Guru e o jazz não era apenas estética — era genealógica. Uma das primeiras músicas do Gang Starr, "Words I Manifest", sampleou Charlie Parker tocando "A Night in Tunisia". Branford Marsalis havia tocado saxofone em "Jazz Thing", a faixa que o Gang Starr contribuiu para a trilha sonora do filme
Mo' Better Blues de Spike Lee em 1990.

O jazz havia chegado ao hip-hop desde o começo — os DJs pioneiros como Kool Herc e Afrika Bambaataa colocavam discos de Roy Ayers e Bob James em suas festas de parque. Mas Guru queria ir além de samplá-los. Queria que eles estivessem na mesma sala.

  

Em 1993, ainda enquanto era membro ativo do Gang Starr, Guru lançou seu álbum solo de estreia. Não era um álbum de rap. Era um experimento: música gravada ao vivo com músicos de jazz da geração anterior, sobre cuja performance Guru rapeava em tempo real.

"Por volta de 93, quando tive a ideia do Jazzmatazz, eu estava percebendo como muitos caras estavam escavando discos e sampleando breaks de jazz para fazer hip-hop. Achei que era legal, mas queria levar isso ao próximo nível — trazer os próprios músicos que estávamos sampleando para o estúdio."

 

A capa do álbum trazia a legenda "Uma fusão experimental de Hip-Hop e Jazz." Vinte e cinco anos depois, é possível ler isso como subestimação.

 

O processo de gravação que Guru desenvolveu era deliberado: primeiro, a estrutura rítmica — bumbo, baixo. Depois, o músico de jazz gravava seu solo sobre essa base. Depois, Guru escrevia e rapeava. A cadeia preservava a autonomia de cada elemento. Donald Byrd, que Guru considerava um mentor, tocou trompete. Roy Ayers, cujas vibrações haviam aparecido em incontáveis samples de hip-hop, tocou vibrafone. Branford Marsalis, Lonnie Liston Smith, Ronny Jordan, Courtney Pine — um encontro de gerações que nunca havia acontecido de maneira tão direta e estruturada.

 

 

O rapper francês MC Solaar apareceu em "Le Bien, Le Mal" — uma das faixas mais próximas da estética do Gang Starr, mas com Solaar fluindo em francês com uma agilidade que revelava a profundidade da conexão entre o hip-hop e a cultura francófona. A cidade de Montpellier, na França, nomeou uma rua em homenagem a Guru após sua morte — reconhecendo uma influência que na América havia ficado maior que o reconhecimento recebido.

O
Jazzmatazz Vol. 1 foi lançado em 18 de maio de 1993. Nos Estados Unidos, as vendas foram modestas. Na Europa, onde o jazz tinha uma presença cultural muito maior, o álbum foi sucesso: chegou ao top 50 na Alemanha, top 50 na Suécia, top 35 no Reino Unido. A crítica americana o chamou de "experimental". A crítica europeia o tratou como fusão natural de duas tradições que nunca deveriam ter ficado separadas.

 A diferença entre o Jazzmatazz e o jazz rap que A Tribe Called Quest, De La Soul e outros pioneiros faziam na mesma época é técnica e filosófica.

O Tribe sampleava. Guru convidava. A diferença parece pequena até você pensar no que ela significa. Quando você samplea Roy Ayers, você extrai um fragmento de sua música e o reutiliza em outro contexto. Quando você o convida para o estúdio, você cria uma conversa entre duas tradições, entre duas gerações, entre dois vocabulários que descobrem uma língua comum em tempo real.